sexta-feira, 4 de julho de 2014

A narrativa ausente

          "Decifra-me ou devoro-te!” O eco do desafio mitológico da esfinge de Tebas acompanha a divulgação das sondagens eleitorais. Na etapa final da campanha, não existem enigmas difíceis: a trajetória das intenções de voto diz tudo o que importa.
          Contudo, nas etapas prévias, o panorama é mais complexo. Os analistas têm destacado as informações sobre a vontade de mudança do eleitorado e os índices de rejeição da presidente que busca a reeleição.

          São dados relevantes na equação, mas não deveriam obscurecer um outro, que configura um paradoxo: o crescimento das intenções de voto nos candidatos de oposição continua longe de refletir a vontade majoritária de mudança. Se não interpretarem corretamente o paradoxo, os oposicionistas oferecerão a Dilma Rousseff um triunfo que ela não pode obter por suas próprias forças.
          Publicamente, o PSDB e o PSB asseguram que o crescimento das candidaturas de Aécio Neves e Eduardo Campos é só uma questão de tempo — ou seja, de exposição no horário eleitoral. Na hipótese benigna, eles não acreditam nisso, mas falam para animar suas bases.
A hipótese maligna é que se refugiam no pensamento mágico, acalentando o sonho de uma vitória por default. De um modo ou de outro, parecem longe de admitir o que as sondagens eleitorais insistem em demonstrar: ambos carecem de uma narrativa política capaz de traduzir o desejo majoritário de mudança.
          A candidatura de Eduardo Campos sofre de um mal de origem. O ex-governador de Pernambuco era, até ontem, um “companheiro de viagem” do lulismo, e sua vice, Marina Silva, fez carreira política no PT, ainda que sua dissidência já tenha uma história. Desse mal, decorre um frágil discurso eleitoral: a “terceira via”, ao menos na versão de Campos, é um elogio do “lulismo sem Dilma”.
          O discurso viola a verdade política, pois o governo Dilma representa, em todos os sentidos, o prolongamento dos mandatos de Lula. De mais a mais, é inverossímil, pois o eleitorado aprendeu que “Lula é Dilma” e “Dilma é Lula”.
A candidatura de Aécio Neves sofre de um mal distinto, evidenciado nas campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin, em 2006, e de José Serra, em 2010: o PSDB não sabe explicar o motivo pelo qual quer governar o país. Oito anos atrás, Alckmin apostou suas chances na tecla da denúncia de corrupção.
          Há quatro anos, Serra investiu nas suas qualidades pessoais (a “experiência”) e no tema da “gestão eficiente”. A despolitização do discurso dos tucanos refletiu-se na apagada atuação parlamentar de Aécio, que nem sequer tentou transformar sua tribuna no Senado em polo de difusão de uma mensagem oposicionista.
          Não é fortuito que, a essa altura da corrida presidencial, suas intenções de voto permaneçam tão abaixo dos índices de rejeição à candidatura de Dilma.
          O PSDB tem algo a aprender com o PT. Nos seus anos de oposição, o PT construiu uma narrativa sobre o governo e a sociedade que, mesmo se mistificadora, sintetizava uma crítica fundamental às políticas de FH e indicava um rumo de mudança.
          Naquele tempo, o PT dizia que os tucanos governavam para a elite, acentuavam as desigualdades sociais e, no programa de privatizações, queimavam o patrimônio público no altar dos negócios privados. O PSDB desperdiçou seus anos de oposição sem fazer a defesa do legado de FH, propiciando a cristalização da narrativa petista.
          Consequência disso, não formulou uma crítica de conjunto aos governos lulopetistas, limitando-se a aguardar que, num passe de mágica, o poder retornasse às suas mãos. Agora, Aécio só triunfará se produzir, em escassos meses, a narrativa que seu partido não elaborou ao longo de 12 anos.
          Lula disse, várias vezes, e com razão, que “os ricos nunca ganharam tanto dinheiro como nos seus governos”. O PT governa para a elite, subsidiando pesadamente o grande capital privado enquanto distribui migalhas do banquete para os pobres, a fim de comprar seus votos.
           O contraste entre os valores envolvidos no Bolsa Empresário e os dispêndios no Bolsa Família contam uma história sobre o lulismo que o PSDB ocultou enquanto fingia fazer oposição. Terá Aécio a coragem de expô-la, mesmo às custas de desagradar ao alto empresariado?
          Nos três mandatos do lulopetismo, o governo promoveu o consumo de bens privados, descuidando-se da geração de bens públicos. Os manifestantes de junho de 2013 foram rotulados pelo PT como “despolitizados” por apontarem essa contradição, levantando as bandeiras da educação e da saúde (“escolas e hospitais padrão Fifa”).
No fundo, as multidões que ocuparam as ruas até serem expulsas pelos vândalos e depredadores estavam tomando uma posição sobre as funções do Estado. Terá Aécio a lucidez de reacender esse debate, do qual o PSDB foge sempre que o PT menciona a palavra “privatização”?
          O sistema político do país vive um longo outono, putrefazendo-se diante de todos. A “solução” oferecida pelo PT é uma reforma política que acentuaria seus piores aspectos, junto com a rendição do Congresso à pressão dos “conselhos participativos”.
          Mas a raiz da crise crônica está fora do sistema político: encontra-se na própria administração pública, aberta de par em par à colonização pelos partidos políticos. Aécio promete operar uma cirurgia puramente simbólica, reduzindo o número de ministérios. Terá ele a ousadia de, desafiando o conjunto da elite política, propor um corte profundo, radical, no número de cargos públicos de livre indicação?
          Ano passado, ouvi de uma assessora econômica tucana a profecia de que, antes do fim da Copa, um colapso econômico provocado pela inversão da política monetária americana decidiria a eleição presidencial brasileira.
          Era um sintoma da persistência do pensamento mágico que hipnotiza o PSDB desde a ascensão de Lula à presidência. Não: o Planalto não cairá no colo de Aécio. Para triunfar, ele precisa oferecer ao país uma narrativa política coerente.
 

Demétrio Magnoli é sociólogo(O GLOBO)

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sábado, 7 de junho de 2014

TODOS NÓS TIVEMOS O NOSSO RIO


          Francisco Miguel de Moura, escritor, membro da Academia Piauiense de Letras

Todos nós, principalmente os interioranos, tivemos o rio da nossa infância. E esta lembrança, às vezes traz saudade, sentimento natural que vem por conta de que a água preenche cerca de dois terços do nosso mundo, o planeta Terra. Assim é o nosso corpo também: 70% de líquido, embora animais terrestres.  Todos os poetas têm um rio para cantar. Fernando Pessoa é o grande exemplo. Num poema em que diz amar o rio Tejo. “Só que o Tejo não corre por minha aldeia”. Mas, certamente, as águas do rio de sua aldeia desaguariam no Tejo. Com o trocadilho, faz uma imagem belíssima do seu rio. Da Costa e Silva tem o “Parnaíba, o velho monge, as barbas brancas alongando e, ao longe, o mugido dos bois de minha terra” - o grande rio da saudade do maior poeta piauiense.  Já o meu rio de criança, qual é? O Parnaíba também é o meu rio, “só que ele não passa por minha aldeia”. Em “Jenipapeiro”, minha aldeia, quem passa é um rio que não é rio, é um riacho grande, o Riachão. Mas, no meu tempo de menino, nas cheias de outubro a fevereiro, ele corria como um rio de vergonha. Eu me encantava quando ouvia o ronco de sua primeira cheia, a primeira “cabeçada d’água” em grande altura correndo sobre o leito seco. Era um espetáculo maravilhoso. Quem estivesse no meio não se livraria da morte, a menos que soubesse nadar bem, coisa que eu nunca aprendi. Meu pai era um bom nadador, gostava de atravessá-lo nas cheias, levando as pessoas e seus pertences para a outra margem. Ele gostava também de pescar e pescava com tarrafas feitas por ele próprio, pescava peixes grandes e peixinhos para o nosso almoço, o nosso “pirão”.  Eu só pescava no verão, quando o Riachão baixava a corredeira e deixava poços enormes (para mim, naquela idade). Eram mandis, curimatãs, branquinhas e corrós, que a gente ia buscar dentro das locas. Alegremente, levava o resultado de minha pesca para casa, e então minha mãe preparava o almoço.  Era uma festa.  No tempo das enchentes o meu rio era um rio “macho”, com força, que nos embevecia e ao mesmo tempo nos causava medo. Depois secava e a gente tinha pena, ia apenas tomar banho em cacimbas cavadas no leito. Portanto, meu rio não foi aquele açude em que me banhava nu, com Rosinha também nua, ambos inocentes, no Angico Branco (região de Picos). Ela está imortalizada em meu poema “Sonetos da Paixão” e também num soneto inédito, denominado “Primeira Namorada”, onde eu abro a cortina das minhas mentiras (ficções de poeta) e troco o nome de Rosinha pelo verdadeiro: Francelina.

Todos tivemos o nosso rio como tivemos as nossas namoradas. No caso da escritora Deolinda Marques, deve ter tido namorados, pois ela teve por rio o Guaribas, na hoje cidade de Bocaina, rio que naquele tempo ainda era perene, e agora se orgulha da sua barragem, por mim imortalizada no romance “Dom Xicote”. Mas o Guaribas também foi o meu rio, quando meu pai, professor andejo, morou no encontro do Riachão com o Guaribas, lugarzinho de nome Barra, próximo de Bocaina. Foi quando meu pai fazia tarrafas, pescava no encontro dos rios e fazia a comida para nós pequenos, quando chegava a nossa casa, em silêncio: - Ele estava separado de minha mãe, que ficou na Sussuapara, por causa de brigas do casal. Desse tempo tenho mais saudades. Por isto pergunto, no meu soneto “Saudade”: Por que a saudade é também uma coisa triste? Por que os tempos mais pesados, mais sofridos em carência, são os que mais ficam em nossa memória? Quem chegar a ler “O menino quase perdido” poderá encontrar alguma resposta, em fragmentos, do que estou referindo.

O Itaim, para onde corre o Guaribas, também foi meu rio. Morávamos em “Aroeiras”, do município de Picos. Também foi um tempo salobro e insalubre, tal como as águas povoadas de piranhas do itainense rio. Por essa razão, nunca pus os pés nele. Como sabemos, o Itaim despeja no Canindé: este eu não conheço, é meu elo perdido das águas. Eis a rede hidrográfica do médio Piauí, a parte que começa na zona mais seca, nos contrafortes da Serra do Araripe. Se eu errei alguma coisa, me perdoem os geógrafos. Aqui me interessam primeiro as águas da minha saudade, não os elementos geográficos em si. É uma geografia sentimental.

Sequer tive a oportunidade de estar na foz do Canindé, quando se esparrama no Parnaíba. À nossa Teresina cheguei, para morar definitivamente, em 1964. Mas já conhecia o grande rio desde menino. Só tenho espaço aqui, para contar, que atravessei o Parnaíba, de barco, indo para o Maranhão, numa passagem de nome “Mescla”, ou “Amescla”, ali na altura de quem desce de Elesbão Veloso até o Parnaíba, sem fazer voltas.

No penúltimo sábado, assisti, na Academia, várias palestras sobre o rio Paranaíba e sua morte lenta. Mas, de certo tempo para cá, não tão lenta. Ouvi os discursos de Humberto Guimarães e de Elmar Carvalho. Eles falaram verdades cruas. Nos anos 1960 a gente podia tomar banho em suas “coroas”, que não corria perigo de doenças. Quantas vezes nele nos banhamos, eu, minha família, meus amigos e amigas daquele tempo! São coisas do passado, ficaram em livros, nos jornais, e pronto. O Parnaíba está triste, transformado num esgoto a céu aberto, secando, as margens sem florestas, transformadas que foram em roças de pastagem ou plantio de lavouras de subsistência. Assim, sem o lençol de suas margens, correm areias e detritos para o leito do rio e o aterram. Que maldade! Que barbaridade! Toda a rede hidrográfica do Piauí chega ao Parnaíba já degradada.  Nós não ansiaríamos um porto no mar, se houvéssemos tratado bem o Parnaíba. Agora, babau! Nem porto nem rio.

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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Barbosa sai de cena.




               O BRASIL PRECISA DE EXEMPLOS
          O legado do ministro Joaquim Barbosa transcende a prisão de um bando de corruptos poderosos. Ele mostrou que é possível fazer a coisa certa sem precisar transigir ou flertar com o que existe de errado.

          O mineiro Joaquim Barbosa sempre acreditou no esforço pessoal. Filho de um pedreiro e uma dona de casa, estudou em escola pública, formou-se numa universidade federal e assumiu importantes cargos depois de ser aprovado em concurso. À carreira no Ministério Público, acrescentou uma sólida história acadêmica, com passagens, como estudante e professor, por renomadas instituições de ensino do Brasil e do exterior.
          Barbosa construiu sua trajetória sem a ajuda de padrinhos influentes e sem pedir favores. Numa sociedade acostumada a atalhos duvidosos e ao jeitinho, preferiu o árduo caminho da meritocracia. Essa biografia chamou a atenção do presidente Lula. Em 2003, ele indicou Barbosa para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
          O objetivo de Lula era nomear pela primeira vez um negro para a mais alta corte do Judiciário e, assim, tirar do papel a agenda de políticas afirmativas do governo. O que Lula não sabia é que a escolha renderia frutos bem maiores. Ele escalara o homem certo, na hora certa, para desferir o mais duro golpe contra a corrupção na história recente do país. Sorte dos brasileiros de bem, azar do PT.
          Em 2012 e 2013, durante mais de sessenta sessões plenárias, Barbosa comandou o julgamento do mensalão, como relator do processo e, depois, também como presidente do STF. O resultado criminal é conhecido: o Supremo concluiu que o PT subornou parlamentares para se perpetuar no poder, durante o primeiro mandato de Lula, e condenou a antiga cúpula do partido à prisão.O resultado simbólico também é conhecido: a Justiça finalmente se fez valer para todos, sem distinção, o que foi considerado um divisor de águas na luta contra a impunidade que há séculos privilegia os poderosos no Brasil. Anunciadas as penas e decretadas as prisões, Barbosa se tornou uma espécie de herói nacional, o cavaleiro vingador da capa preta, aplaudido nas ruas e assediado para disputar as eleições.
          Mas esse era apenas um dos lados da moeda. A outra face, menos evidente, levou o ministro a anunciar, na quin­ta-feira, que deixará o Supremo em junho, onze anos antes do prazo fixado para sua aposentadoria compulsória. “Minha missão está cumprida”, disse Barbosa.
          Em fevereiro, VEJA revelou que o ministro cogitava antecipar a aposentadoria. Essa possibilidade ganhou força depois de o plenário derrubar a condenação por formação de quadrilha imposta aos mensaleiros. Barbosa, que se acostumara a formar a maioria, acabou derrotado na votação.
          Ele suspeitava que dali para a frente, devido à nova composição do tribunal, tenderia a ser sempre derrotado nos embates criminais mais polêmicos. “Essa é uma tarde triste para o Supremo. Com argumentos pífios, foi reformada, jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida e extremamente bem fundamentada”, lamentou o ministro.
          O PODER NA PRISÃO — Apesar das pressões e ameaças, inclusive de morte, Barbosa foi implacável com os mensaleiros. José Dirceu foi condenado a sete anos e onze meses e José Genoino a quatro anos e oito meses de cadeia por crime de corrupção.
          A reação estava diretamente relacionada às dificuldades presentes no caso. Lula e o PT jogaram pesado para adiar o início do julgamento, numa tentativa de facilitar a prescrição de certos crimes. Também procuraram ministros para convencê-los a reduzir as penas da companheirada e suavizar o enredo criminoso.
          Quando o julgamento finalmente começou, Barbosa teve de comprar uma série de brigas para tirar o tribunal de uma espécie de zona de conforto. Uma zona de conforto que, registre-se, sempre contribuiu para dificultar a condenação de políticos, empresários e banqueiros.
          Barbosa bateu de frente com os próprios colegas para garantir e acelerar as votações. Chegou a agredi-los verbalmente, acusá-los de cumplicidade com chicanas e acabou isolado dentro do tribunal. Pagou um custo pessoal que, segundo seus assessores, foi compensado pelo benefício proporcionado à sociedade.
          O ministro também partiu para um duelo aberto com os maiores criminalistas do país. Recu­sou-se a recebê-los para conversas informais. Parece irrelevante, mas não é. Não são poucos os magistrados que fazem questão de agradar aos grandes nomes da advocacia nacional, mesmo que por meio de pequenos gestos.
          De origem humilde, Barbosa teve coragem de romper com esses “rapapés aristocráticos”, conforme expressão lapidar cunhada pelo antropólogo Roberto DaMatta. O custo pessoal, novamente, não foi pequeno.
          “As grandes marcas dele, infelizmente, são a truculência no trato e a intolerância com os pontos de vista que não convergiam com os dele”, afirma Alberto Toron, advogado do petista João Paulo Cunha, o ex-presidente da Câmara encarcerado na Papuda. Barbosa, de fato, nem sempre lida bem com a divergência.
          Muitas vezes, mostrou-se iracundo e autoritário. Certa vez, mandou um jornalista “chafurdar na lama” porque ele ousou lhe fazer uma pergunta. Para o ministro aposentado do STF Carlos Velloso, Barbosa pecou na forma, mas, no caso do mensalão, acertou em cheio no conteúdo. “As instituições valem por si, mas a grandeza depende das pessoas que fazem funcionar as instituições.
          Barbosa conduziu com firmeza um julgamento exemplar de um processo tormentoso, com muitos réus, e não eram réus quaisquer”, diz Velloso. Se não tivesse coragem de enfrentar tantas trincheiras, talvez o STF estivesse até hoje às voltas com requerimentos, petições, questões de ordem…
          Depois do mensalão, Barbosa definiu duas prioridades. Uma delas era participar do julgamento sobre as perdas decorrentes dos planos econômicos. Trata-se de um processo bilionário que opõe correntistas a instituições financeiras. No STF, especulava-se que o ministro, após mandar políticos e empresários para a cadeia, votaria contra os bancos.
          Com a análise desse caso econômico adiada novamente, Barbosa decidiu antecipar a aposentadoria. A outra prioridade era garantir a eficácia das penas aplicadas aos mensaleiros.
          Barbosa se insurgiu contra os privilégios concedidos a eles na cadeia. Recentemente, suspendeu a autorização de trabalho externo. Com base num laudo médico, revogou a prisão domiciliar de José Genoi­no. O ex-ministro José Dirceu nunca recebeu aval para trabalhar fora do presídio.
Os advogados dos mensaleiros recorreram dessas decisões ao plenário do STF. Não está certo se o julgamento do recurso ocorrerá antes ou depois da aposentadoria de Barbosa.
          Se a saída tiver acontecido, será sorteado um novo relator, e a presidência já estará sob a responsabilidade de Ricardo Lewandowski. Afilhado político da ex-primeira-dama Marisa Letícia, Lewandowski é lhano no trato, tem boas relações com os colegas e os advogados e defendeu a absolvição de Dirceu e Genoino no processo. Especialista nos “rapapés aristocráticos”, ele é a antítese de Barbosa.
O PT não vê a hora de seu algoz sair de cena. De certa forma, também se cansou da briga. “A postura dele não foi de um estadista do Poder Judiciário. Constatamos uma postura carregada de ódio que não caberia a um juiz”, disse o deputado Vicentinho, líder do PT na Câmara, ao comentar a aposentadoria.
          Essa declaração é legítima e faz parte do jogo democrático. Pena que o PT não pare por aí. Militantes do partido na internet, como VEJA mostrou, chegaram a ameaçar Barbosa de morte. “Contra Joaquim Barbosa toda violência é permitida, porque não se trata de um ser humano, mas de um monstro e de uma aberração moral das mais pavorosas. Joaquim Barbosa deve ser morto”, escreveu um deles.
          Extenuado, o ministro quer se afastar da artilharia petista e, mais importante, virar a página do mensalão. Para ele, o assunto está encerrado, pacificado.
Não é à toa. Sob sua batuta, o Supremo deu aos brasileiros uma lição de moralidade e intransigência com as roubalheiras. Uma lição que até desafetos, como o ministro Marco Aurélio, fizeram questão de ressaltar: “O Supremo, como colegiado, acabou por reafirmar que a lei é lei para todos indistintamente e que não se agradece a esse ou aquele ato a partir da ocupação da cadeira no Supremo”.
Barbosa não agradeceu a Lula, o que permitiu ao país dar um passo importante em sua escalada civilizatória. Eis aí um grande legado.
          A meritocracia do esforço
          Muito pobre na infância, Joaquim Barbosa estudou, trabalhou, foi aprovado em concurso público e chegou à mais alta corte de Justiça do país sem precisar de amigos influentes, favores ou uma mãozinha de políticos.
1. Nascido em uma família humilde de Paracatu (MG), Joaquim Barbosa teve de trabalhar desde cedo para sustentar a casa. Filho de um pedreiro e uma dona de casa, ajudava o pai a fabricar tijolos e a entregar lenha.
2. Aos 16 anos, Barbosa foi sozinho para Brasília, arrumou emprego em uma gráfica, e terminou o ensino médio, sempre estudando em colégio público.
3. Aos 22 anos, tornou-se oficial de chancelaria do Ministério das Relações Exteriores. Depois acabou reprovado num concurso para diplomatas devido, diz ele, a preconceito racial.
4. Formado em direito, foi aprovado no concurso para procurador da República. Fez doutorado na Sorbonne, em Paris, foi professor visitante na Universidade Colúmbia, em Nova York, e na Universidade da Califórnia.
5. Em 2003, Joaquim Barbosa estava nos Estados Unidos quando foi convidado pelo ex-presidente Lula a assumir a vaga no STF.

Fonte: Veja.
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segunda-feira, 17 de março de 2014

SOBRE COMO ESCREVI O HINO



          Em certo dia do mês de março de 1985, Carleusa, então prefeita de nossa cidade, chegou à casa do Prof. Mariano com o propósito de convidá-lo a escrever um livro sobre o Município de Francisco Santos, como parte das comemorações dos 25 anos de nossa emancipação política, festa que se daria a 24 de dezembro daquele ano. Como estivesse eu presente, a senhora prefeita, talvez por ter ouvido falar que eu era um arranhador da poesia, e, quem sabe, até de brincadeira, igualmente estendeu a mim o convite para compor o hino da cidade. Digo "de brincadeira" porque sei que havia na época, como existem hoje, pessoas muito mais gabaritadas do que eu para feito de tal envergadura. Acontece que, para desapontamento dela, topei o desafio. E "desconvidar" ficava feio.

   Não me foi difícil estabelecer os aspectos a serem levantados, posto que em composição tão específica eles, em geral, obedecem a um padrão. Assim, busquei destacar nossas origens, o caráter de nosso povo, sua versatilidade na arte da sobrevivência, sua religiosidade, além das potencialidades e belezas do lugar.

  Muito bem! Até aí nada mais fácil. Mas, conforme já frisei, não sou poeta, sou, quando muito, um versejador prosaico. Assim, quando busquei transformar em poesia aqueles aspectos elencados, faltaram-me traquejo e concatenação, resultando daí o verso desarrumado, a estrofe frouxa e sem vida e a estética – que é essencial ao poema – andava a léguas de distância.

 E bateu-me a angústia, abatendo-me. Arre! Que pleonasmo...

O prazo a correr, e a obra empacada, teimando em não sair. E a prefeita, através de Mariano, a cobrar, visto que havia providências a serem tomadas, como arranjos musicais e gravação em disco. Dias, semanas e meses... e o poeta, obtuso, sem inspiração, a suar calafrios, no temor do não cumprimento da palavra empenhada. Eu dormia e acordava sonhando com o hino, hino idealizado, prontinho na cabeça, mas teimando em não descer ao papel. Já pelo mês de julho, de repente, acordo no meio da noite e...

 ... Vapt-vupt! Saiu o danado do hino, de uma só canetada. Se alguma correção fiz, foi apenas para melhor adequação de palavras. Encaminhei-o à prefeita, a qual, achando-o bom ou ruim, aceitou-o, talvez em virtude da exiguidade do tempo.

Estava salva minha reputação.       


O hino das minhas angústias, afinal, saíra para a vida. Senti um indizível orgulho ao ouvi-lo em gravação. Era como um filho – meu primeiro filho literário! E esse filho ganhou vida. Quem primeiro me falou dele foi o Prof. Mariano, que assim se referiu: “Seu João, vamos a Francisco Santos; os alunos querem conhecer o autor do hino, que faz sucesso nas escolas”. Eu, a princípio, não quis acreditar em tal sucesso, mas devido a insistência do mano, após muitos convites, resolvi aceitar a fazer-me conhecido pelo alunado de minha Terra, alunado que, segundo Mariano,  cantava aqueles pobres versos de minha autoria. Mas, então, já era tarde para meu irmão: ele não pôde mais vir e morreria menos de quatro meses depois. Em dezembro do mesmo ano - 2004 - eu pude, finalmente, atender seu desejo: fui a minha Terra, a convite da professora Isaura Maria de Sousa, que me apresentou aos alunos de várias escolas. E qual não foi minha surpresa ao constatar que o hino “pegara”!

Hoje, mais de 20 anos depois de lançado, recebo convite para participar do lançamento oficial de Francisco Santos É assim..., obra informativa e de muito valor cultural e educacional, em que o hino é posto em destaque, numa caracterização estupendamente bem-feita.

Caros conterrâneos!

Por razões de saúde, vejo-me impossibilitado de comparecer a uma solenidade que seria para mim consagradora e gratificante. Eu, humilde filho do velho Loura, hoje só de poucos lembrado, posto em destaque num livro! Que oportunidade melhor para conhecer e fazer-me conhecido dos meus conterrâneos, das professoras que ensinam e dos alunos que cantam as estrofes do hino nascido da minha angústia e do meu amor pela Terra!?, a qual, em 40 anos não visitei mais que dez vezes. Quando, porém, a partir de 2004 pretendi retomar e retornar ao convívio de minha boa e querida gente, eis que o coração põe-se a me dar sustos. Um stentado (mola no peito), por recomendação médica, tem de ter certos controles e deve estar sempre em lugar de fácil e imediato socorro, em caso de necessidade.

Diante disso, desculpando-me pela ausência, quero, através desta nota, agradecer:

- Em primeiro lugar, a Deus, por ter-me permitido criar do nada a letra deste  hino que canta minha Terra;

- em segundo lugar, à pessoa que deu ensejo a que ele fosse produzido. Trata-se da prefeita de então e de agora: Maria Carleusa dos Santos Batista de Carvalho;

- em terceiro lugar, a esta pessoinha que idealizou a sua caracterização, pessoa cuja pouca estatura está inversamente proporcional ao tamanho de sua inteligência. Refiro-me a Rosa Isaura, esse pequeno frasco em que se contém inteligência tão rara. Rosa Isaura: muito obrigado!

   - por último, mas com merecido destaque, pois sem esse quarto elemento o  hino seria letra morta, desejo agradecer, de coração, às professoras e professores, aos alunos e ao povo em geral, que o acolheu como um dos símbolos cívicos de nossa Terra.

  Finalizando, quero transcrever um pequeno trecho de um livro meu, ainda inédito, em que dou notícia do amor que tenho a minha Terra, com o objetivo de tentar responder à pergunta que alguns haverão de fazer: “Quem é este “ilustre” forasteiro que nos vem falar de amor à terra, se ele por aqui não dá as caras?”  
C O N F I S S Õ E S

         Eu amo minha Terra. A meu modo. De longe, e em silêncio. Um silêncio que não é do esquecido. Embora pareça apátrida, ingrato, vez por outra filho pródigo, vivo impregnado de lembranças de minha Terra, de sua gente, de seus costumes, de seu modo de ser e de viver.

         Minha Terra é um Altar. Altar de sacrifício e de felicidade! Aqui derramei muitas lágrimas, porém desfrutei  do  mais puro e profundo amor: o amor de meu pai! Aqui, no mais profundo desse solo-berço, há de encontrar-se um restinho de barro de sua carne. Quem sabe a relva mais singela não lhe deva a vida? Aqui também me quero ficar, quando chegar minha hora, para renascer nessa relva simples de pé de sepultura. E também ser essa lembrança do que um dia (?) serei: uma reles folha de capim - um quase nada a balançar-se ao vento!

                   Por isso,

                   por seres a Terra de meus pais,

                   berço dos meus antepassados,

                   amo cada palmo desse teu sagrado chão,

                   cada pedra ou grotão!

                   Amo até a gostosa areia que eu comia,

                   aparada das sandálias de couro de Seu João Mariano,

                   quando seguíamos para a vazante

                   - eu atrás

                   e ele adiante, a caminhar:

                   - Currulepo... currulepo... currulepo...

                   Empanturrava-me dessa areia,

                   areia aparada de suas “currulepas”.

                   Daí que amar - e relembrar! - minha Terra

                   é como esse vício antigo de comê-la;

                   e é do que me venho sustentando,

                   desde que a deixei,

                   ainda na longínqua infância.

*  *  *

          Mas a gente cresce... cresce.... cresce... E o arco do círculo da vida se vai fechando pouco a pouco... 

         Com vistas à minha futura aposentadoria, alimentei um sonho durante vários anos. O sonho de retornar à velha Terra, aos meus pastos da infância. Recompraria a velha casa e as roças que haviam sido nossas, e ali implantaria um pequeno projeto leiteiro ou hortifrutigranjeiro. E então reviveria na velhice os gozosos tempos da infância e mocidade.

         Minha mulher, astuta e inteligentemente, entendendo que aquele projeto nada tinha de econômico, mas era fundamentalmente sentimental, procurou dissuadir-me com um argumento deveras contundente:

         - Meu velho! isso é quimera. Você busca o inalcançável. Os velhos de seu tempo, de quem você tanto fala, estão todos mortos. Não vê seu pai? Também seus amigos de infância migraram para outras terras. Até os caminhos já não são os mesmos; as árvores que você tanto amava, foram cortadas ou morreram. Não vê como está o velho flamboyant da frente de sua casa? Está retorcido e já não flora mais. Parece que chora os que se foram... As coisas, meu velho, não se repetem nunca. Que lhe restará se não ficar nessa espera angustiosa por coisas que jamais voltarão?

         Ai, dona Sônia! Atingiu bem no âmago. Dedo na ferida. Eu sempre soube que seria assim. A espera inútil...

         E desisti do projeto...

*  *  *

          No entanto hoje estou aqui, recordando essas coisas, com essa dor no peito, essa imensa saudade. Em minha vida sempre padeci da síndrome da perda ou da morte precoce: minha doce mãe, meu autoritário mas bondoso pai, minha irmã mais velha, depois uma de minhas irmãs “do meio”, meus projetos e sonhos em que somente eu acreditava, e a Terra, de que me afastei, sem uma explicação aceitável.

*  *  *

         Mas nem tudo foi em vão. Ver  o hino caracterizado – com destaque! – é recompensa mais que gratificante. E também não foi inútil principalmente porque hoje posso dizer, alto e bom som:

                  Jenipapeiro dos meus verdes anos;

                  Francisco Santos de tantas reminiscências;

                  Terra de tantas e raras inteligências;

                  – eu te amo!


  Professora Rosa Isaura,
  diga isso por mim aos meus caros conterrâneos.

 MUITO OBRIGADO.

 JOÃO BOSCO DA SILVA
(Por ocasião do lançamento do livro: Francisco Santos é assim... em julho de 2007.

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