quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

AMOR PROIBIDO


Todo mundo tem um amor proibido
Guardado, escondido, sem jamais revelar
Tratado nas sombras, ilegal, atrevido
Inteiramente híbrido, não consegue brotar.

Esse tipo de amor nunca foi correspondido;
Desejos reprimidos não conseguem aflorar.
E sofrer muito mais do que temos sofrido
É o mínimo, de tudo, que podemos esperar

O tempo passou, dava pra ter percebido
Mas o orgulho ferido não se deixa enganar;
Sua presença constante, um olhar incontido
Reacende as chamas que nunca irão apagar

Há muito tempo que estou convencido
Mesmo quando ferido, é preciso lutar
Embora essa luta seja tempo perdido
É importante unir forças para continuar

Mas ainda restou um coração partido
No peito dolorido levemente a pulsar
Brevemente refeito por ter entendido
Que o fruto proibido não deve vingar.

José Joel Rodrigues dos Santos(Zé Joel) é um excepcional poeta, os versos acima confirmam. Tem também ótima formação intelectual e profissional, sendo graduado em Publicidade e Propaganda, pós-graduado em Metodologia do Ensino Superior. É Fiscal de Tributos e Assessor Parlamentar.


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quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Festejos de Francisco Santos - Agenda Cultural


          A agenda cultural dos festejos de Francisco Santos começa hoje, com um show da Banda ERROS. Esse grande momento terá inicio às 21:00 horas no Penta Club. 
          A despeito do nome ERROS, posso afirmar que é uma equipe de respeito, formada por jovens amantes do bom e velho rock and roll, mas muito responsaveis e que tocam por prazer. Sob o comando de Luedno Luís, Janylei e Hélio, a banda também conta com as participações de Uyldes Rezende, Preto e Gillzep. 

          O grupo já tem uma carreira consolidada, pois em muitos anos de estrada vem tocando sempre o bom rock and roll. A banda é formada por jovens que além da vocação musical tem ocupações ligadas a criação, pois são artesãos, técnicos em informática e eletrônica: 
Luedno Luis, fundador e um dos mais entusiasmados membros da banda é técnico em eletrônica;
Helio é artesão, trabalha com marcenaria;
Preto, é o provedor maior de internet em Francisco Santos;
Janylei é confeiteiro;
Gilzzepi é técnico em sistemas de computação;
Uyldes Rezende é comerciante de...produtos de informática.




          Outra boa pedida é a apresentação da Banda de Carlos Heitor, no tradicional Veneza Club, dia 21 de Dezembro de 2014, às 20:00 horas. Sob o comando de Carlos Heitor, também tocando o bom rock and roll, a banda Vicios e Virtudes vem ousando, tendo feitos muitas apresentações em Francisco Santos e em Picos. A banda tem apenas seis meses de carreira, pois é formada por ex-componentes da Banda Erros e alguns músicos de Picos.





         Também no dia 29, no Penta Club, haverá o I Festival de Rock de Francisco Santos, o Rock In Chico. Com a participação de 03 bandas do mais puro rock and roll. 



          Vá. 
          Participe. 
          Prestigie os nosso valores.


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54º Aniversário de Francisco Santos - Programação Oficial


          O caledário oficial dos festejos do 54º Aniversário de Francisco Santos, terá a seguinte programação:

Dia 22 de Dezembro de 2014 - (Segunda-Feira)
Horário: 19:00 horas
Lançamento do livro: Romanceiro dos Versejadores e Repentistas de Jenipapeiro
Escritor: João Bosco da Silva
Local: Auditorio da Escola Municipal Santa Helena(Antigo Ginásio Cristo Rei)

Dia 24 de Dezembro de 2014 - (Quarta-Feira)
8:00 Horas - Momento Cívico
Hasteamento de bandeiras e execução de hinos.
Local: Prefeitura Municipal de Francisco Santos
9:00 Horas - Missa Solene em Ação de Graças
Local: Igreja do Imaculado Coração de Maria

Dia 25 de Dezembro de 2014 - (Quinta-Feira)
17:00 Horas - Divulgação Oficial de Nomes de Ruas e Avenidas.
Local: Auditório da Escola Municipal Santa Filomena.


Dia 27 de Dezembro de 2014 - (Sábado)
22:00 Horas - XII Chico Folia
Bandas: Banda Ki Agita - Patchanka
Local: Praça Pública

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Corrupção Institucionalizada

          O que todos supúnhamos está ganhando contornos de verdade: o esquema de corrupção nas licitações de obras públicas está espalhado por vários setores no país, e não se restringe apenas à Petrobras. 
          Com conhecimento de causa, essa certeza já havia sido dada pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que iniciou o processo de delação premiada nas investigações do escândalo que ficou conhecido como o petrolão.
          Em recente sessão da CPI mista do Congresso, Costa afirmou que o mesmo esquema de corrupção que existe na estatal se repete em todos os outros contratos públicos do país, incluindo ferrovias, portos, aeroportos, e demais obras.
          O próprio juiz Sérgio Moro, do Paraná, responsável pelas investigações da Operação Lava Jato, disse ontem que as evidências já recolhidas indicam que o esquema de fraude em licitação "vai muito além" da Petrobras. Ele classificou de "perturbadora" uma tabela apreendida em março com o doleiro Alberto Youssef, que continha uma lista de cerca de 750 obras públicas de infra-estrutura.
          Ali, constavam "a entidade pública contratante, a proposta, o valor e o cliente do referido operador, sendo este sempre uma empreiteira", mostrando pelo menos o interesse do doleiro em prospectar novos negócios ilegais no mesmo setor em que já operava.
          O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa confirmou no mesmo depoimento na CPI outro ponto importante que já se sabia pelas evidências: para ser indicado para diretoria de uma estatal, “em todos os governos, desde o governo Sarney, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma”, é preciso ter o apoio político.
          O interesse de políticos por indicações como “a diretoria que fura poço” ou pelo chefe da Receita Federal no aeroporto de Cumbica ou no Porto de Santos, ou pelo diretor da Transpetro sempre existiu, e a ilação mais generalizada na opinião pública é que ninguém se interessa por um cargo desses à toa, para fazer que o Porto de Santos ou a alfândega funcionem melhor.
          E dá também para imaginar que os governantes aceitavam que políticos importantes exercessem influência em áreas estratégicas, como diretorias de estatais, fazendo vista grossa para suas reais intenções. Eram esquemas políticos de corrupção pontuais, mesmo tradicionais e que prejudicavam o andamento dos serviços públicos, subvertendo os valores que deveriam orientá-los.
          O desvio de licitações de obras públicas, e a formação de cartéis, sempre foram denunciados e vemos agora em São Paulo, graças à investigações de autoridades suíças, o desmembramento de um cartel que funcionava até recentemente nos governos do PSDB, desde Mario Covas.
          Vários executivos de empresas estatais responsáveis pelos transportes públicos, sejam trens ou metrô, foram indiciados, inclusive os atuais presidente e o diretor de operações da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Mário Bandeira e José Luiz Lavorente. Apesar de o esquema estar em vigor há muitos anos, não há até o momento nenhuma acusação de que o PSDB montou-o para financiar suas atividades políticas.
          O assunto está sendo tratado como um esquema de corrupção tradicional, digamos assim, e o que se deve estranhar é que tenha funcionado durante tanto tempo sem que três governos tucanos nada notassem.
          Ao contrário, no petrolão (e já houve a comprovação disso no mensalão) há indicações de que esses esquemas passaram a ser institucionalizados, e o que era área de influência deste ou daquele político ou grupo político passou a obedecer a um esquema mais organizado de financiamento dos partidos políticos.
          O Ministério Público Federal já baseava sua investigação na possibilidade de que parte do dinheiro cobrado por diretores da Petrobras para firmar contratos com empreiteiras investigadas pela Operação Lava Jato pudesse ter sido repassado a partidos políticos para financiar campanhas eleitorais.
          No documento que baseou as primeiras prisões de empreiteiros o MPF afirmava que as investigações da Polícia Federal apontam que as doações para campanhas são "mera estratégia de lavagem de capitais" e que o pagamento de propina teria sido utilizado pelas empreiteiras para "obtenção de vantagem indevida".
          Esse esquema foi parcialmente confirmado pela delação premiada do executivo Mendonça Neto, da Toyo Setal, que revelou que dinheiro desviado de uma obra da Petrobras fora transformado em doação legal para o PT, por orientação do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, indicado pelo ex-ministro José Dirceu para o cargo.
          A corrupção institucionalizada é um degrau acima na escala da degradação do Estado brasileiro.

          Merval Pereira, jornalista, membro da ABL e colunista de O Globo.

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Romanceiro dos Versejadores e Repentistas de Jenipapeiro

Capa
            No final deste Dezembro de 2014, mais precisamente no dia 22, será o lançamento de um dos projetos mais ousados de valorização da arte e cultura popular do povo de Francisco Santos. O escritor João Bosco da Silva num trabalho de pesquisa intensa e minuciosa. Coletou e organizou um apanhado de versos e poesias de cordel ou assemelhados, que compreende deste os primeiros versos de Vó Isabel, chegando ao jovem e promissor Cleovan Sousa. Passando pelo mestre e violeiro Miguel Guarany, Sidraque Rodrigues, Zé de Néo, Joaquim de Béu e uma infinidade de bons poetas, matéria prima que temos em verdadeira abundancia.
         Nestes tempos de internet e da comunicação virtual e instantânea, onde o presente vira passado distante em questão de semanas, dias, talvez horas. Em razão desta volatilidade da informação, da descartabilidade de quase tudo que consumimos, inclusive das coisas relacionadas com a cultura. Considero o trabalho de João Bosco da Silva de fundamental importância para a preservação da nossa cultura, da nossa história.      
         A realização de um projeto como o livro Romanceiro dos Versejadores e Repentistas de Jenipapeiro, onde João Bosco se coloca apenas como organizador, demonstra o desprendimento de alguém que tem um objetivo maior, nunca buscando apenas a sua promoção pessoal, mas sempre procurando compartilhar os seus conhecimentos e contribuindo de forma efetiva para que o nosso povo tenha um referencial histórico da sua cultura, dos seus costumes, da sua história de vida.         
        Sabemos do enorme trabalho de pesquisa e coleta de material com parentes e amigos dos poetas, muitos falecidos há décadas, séculos. Das dificuldades encontradas, inclusive financeira, pois organizar, redigir, editar, revisar e depois de tudo pronto, encaminhar para a impressão um projeto de tamanha envergadura é extremamente desgastante e merece ser reconhecido, valorizado, prestigiado. 
        Gostaria de convidar toda comunidade de Francisco Santos, não só os moradores, mas também os visitantes, poetas, professores, alunos, amigos, leitores, colaboradores e simpatizantes desta causa tão importante que é a cultura de um povo. Portanto, convidamos todos a participarem deste grande momento da vida cultural e social de Francisco Santos.
        É importante salientar que este é um evento suprapartidário, onde os poderes constituídos(Câmara e Prefeitura Municipal) contribuem dando o apoio institucional e logístico, pois um evento de tamanha importância para a nossa comunidade, requer uma estrutura razoável para que obtenha exito. 
          

Contracapa.

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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Minhas Poesias


Homenagem à cidade de Francisco Santos

Passei de 50 anos 
De história e de vivência 
Nesse chão onde nasci 
Tem-se muita inteligência.

No espaço onde cresci 
A arte também cresceu 
O repente e a poesia 
No meu chão apareceu.

Sempre acolho com carinho 
Todos que vem me ver 
Estou de braços abertos 
Para a todos acolher.

Sou uma terra de fé 
Sou uma terra de encantos 
Eu sou cidade querida
Meu nome é Francisco Santos.

Francisco Santos me atrai

Francisco Santos me atrai
Por ter fé e devoção
Nosso povo é persistente
No poder da oração.

Francisco Santos me atrai
Por sua arte popular
E também por sua gente
Que não cansa de lutar.

Francisco Santos me atrai
Por seu povo acolhedor
No olhar temos sorriso
E no peito muito amor.

Francisco Santos me atrai
Aqui plantei minha vida
E com muito orgulho eu digo:
Te amo oh! Terra querida.


Minha cidade

Todos tem grande carinho
Por sua terra natal
Comigo não é diferente
Sou como qualquer mortal.

Francisco Santos meu lar
Minha cidade querida
Nessa terra abençoada
Eu plantei a minha vida.

Eu vejo a minha cidade
Com os olhos do coração
Falar em Francisco Santos
Causa em mim grande emoção.

Minha cidade é pequena
Porém, é cheia de encanto.
Nosso povo com carinho
Chama-a de Xico Santo.

Eu amo a minha cidade
Por ela eu tenho afeição
Defendo com muito orgulho
Minha terra é meu chão.

Piauí, minha terra querida

Lá do norte ao sul do Brasil
Não há paz nem amor como aqui
Terra filha do sol do equador
A qual chamo de meu Piauí.

Violenta batalha se deu
Para a gente ganhar liberdade
Piauí, minha terra querida.
De você é minha lealdade.

Nova Iorque, Paris, Istambul.
Não te troco por outro lugar
Piauí, minha terra querida.
É aqui que eu quero morar.

Minha terra, meu berço de vida
Me orgulho de ti Piauí
Dos lugares desse mundo imenso
Meu amor só pertence a ti.

As águas do Rio Parnaíba
Enriquecem muito nosso chão
Piauí, minha terra querida.
Eu te amo de todo coração.

Nessa terra plantei meu passado
Nessa terra colherei o futuro
Piauí, minha terra querida.
Meu amor por você é o mais puro.

Sou feliz por ser um nordestino
E viver aqui no Piauí
Nessa terra de tantas belezas
Quem conhece não esquece daqui.

Te exalto com muito orgulho
Eu não tenho vergonha de ti
És minha alma, meu berço, meu sangue
És pra sempre o meu Piauí.


A voz do sertão

Quando vejo terra seca
Me aperta o coração
Vejo a fome vejo a sede
Tomar conta do sertão.

A lavoura já plantada
O sol quente destruiu
E a pobre asa branca
Para longe ela partiu.

Vivo dias de esperança
Na certeza de um dia
Esperando cair chuva
Pra curar essa agonia.

Tenha dó de nós meu Deus
Mande chuva pro sertão
Pra molhar a nossa terra
E curar essa aflição.

Tenha dó dos animais
Ó meu Deus ó meu Senhor
Pois sem chuva não há vida
Só há lágrimas e dor.

Essa voz vem do sertão
E descreve o padecer
O clamor do nordestino
Seu lamento seu sofrer.
     

Cleovan Sousa, estudante do terceiro período do curso Licenciatura Plena em História na Universidade Federal do Piaui, Campus de Picos. Com vocação para a poesia, já escreveu inúmeros poemas e sonha publicar seu livro. De grande religiosidade, vem participando ativamente de todos os movimentos da Igreja Católica, tendo viabilizado a construção de uma Igreja Capela na comunidade Santa Helena.



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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Apocalipse, agora.


          Passada uma semana do juízo final, ainda me pergunto cadê a Dilma. Ela disse que as contas públicas estavam sob controle e elas aparecem com imenso rombo. Como superar essa traição da aritmética? Uma lei que altere as regras. A partir de hoje, dois e dois são cinco, revogam-se as disposições em contrário.

          Os sonhos de hegemonia do PT invadem a matemática, como Lysenko invadiu a biologia nos anos 30 na Rússia, decretando que a genética era uma ciência burguesa. A diferença é que lá matavam os cientistas. Aqui tenho toda a liberdade para dizer que mentem.

          Cadê você, Dilma? Disse que o desmatamento na Amazônia estava sob controle e desaba sobre nós o aumento de 122% no mês de outubro. Por mais cética que possa ser, você vai acabar encontrando um elo entre o desmatamento na Amazônia e a seca no Sudeste.

          Cadê você, Dilma? Atacou Marina porque sua colaboradora em educação era da família de banqueiros; atacou Aécio porque indicou um homem do mercado, dos mais talentosos, para ministro da Fazenda. E hoje você procura com uma lanterna alguém do mercado que assuma o ministério.

          Podia parar por aqui. Mas sua declaração na Austrália sobre a prisão dos empreiteiros foi fantástica. O Brasil vai mudar, não é mais como no passado, quando se fazia vista grossa para a corrupção. Não se lembrou de que seu governo bombardeou a CPI. Nem que a Petrobrás fez um inquérito vazio sobre corrupção na compra de plataformas. A SBM holandesa confessou que gastou US$ 139 milhões em propina.

          E Pasadena, companheira?

          O PT está aí há 12 anos. Lula vez vista grossa para a corrupção? Se você quer definir uma diferença, não se esqueça de que o homem do PT na Petrobrás foi preso. Ele é amigo do tesoureiro do PT. A cunhada do tesoureiro do PT foi levada a depor porque recebeu grana em seu apartamento em São Paulo.

          De que passado você fala, Dilma? Como acha que vai conseguir se desvencilhar dele? A grana de suas campanhas foi um maná que caiu dos céus?

          Um dos traços do PT é sempre criar uma versão vitoriosa para suas trapalhadas. José Dirceu ergueu o punho cerrado, entrando na prisão, como se fosse o herói de uma nobre resistência. Se Dilma e Lula, por acaso, um dia forem presos, certamente, dirão: nunca antes neste país um presidente determinou que prendessem a si próprio.

          Embora fosse um fruto do movimento de arte moderna no Brasil, Macunaíma é um herói pós-moderno. Ele se move com desenvoltura num universo onde as versões predominam sobre as evidências. Nesta primeira semana do juízo final, pressinto a possibilidade de uma volta ao realismo. É muito aflitivo ver o País nessa situação, enquanto robôs pousam em cometas e EUA e China concordam em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O realismo precisa chegar rápido para a equação, pelo menos, de dois problemas urgentes: água e energia. Lobão é o ministro da energia e foi citado no escândalo. Com perdão da rima, paira sobre o Lobão a espada do petrolão. Como é que um homem desses pode enfrentar os desafios modernos da energia, sobretudo a autoprodução por fontes renováveis?

          Grandes obras ainda são necessárias. Mas enquanto houver gente querendo abarcar o mundo a partir das estatais, empreiteiras pautando os projetos, como foi o caso da Petrobrás, vamos patinar. O mesmo vale para o saneamento, que pode ser feito também por pequenas iniciativas e técnicas, adequadas ao lugar.

          Os homens das empreiteiras foram presos no dia do juízo final. Este pode ser um caminho não apenas para mudar a política no Brasil, mas mudar também o planejamento. A crise hídrica mostra como o mundo girou e a gente ficou no mesmo lugar. Existe planejamento, mas baseado em regularidades que estão indo água abaixo com as mudanças climáticas.

          O dia do juízo final não foi o último dia da vida. É preciso que isso avance rápido porque um ano de dificuldades nos espera. Não adianta Dilma dizer que toda a sua política foi para manter o emprego. Em outubro, tenho 30.283 razões para desmentir sua fala de campanha: postos de trabalho perdidos no período.

          Não será derrubando a aritmética, driblando os fatos que o governo conseguirá sair do seu labirinto. O desejo de controlar a realidade se estende ao controle da própria oposição. O ministro da Justiça dá entrevista para dizer como a oposição se deve comportar diante do maior escândalo da História. Se depois de saquear a Petrobrás um governo adversário aconselhasse ao mais ingênuo dos petistas como se comportar, ele riria na cara do interlocutor. Só não rio mais porque ando preocupado. Essa mistura de preocupação e riso me faz sentir personagem de uma tragicomédia.

          Em 2003, disse que o PT tinha morrido como símbolo de renovação. Me enganei. O PT morreu muitas vezes mais. Tenho de recorrer ao Livro Tibetano dos Mortos, que aconselha a seguir o caminho depois da morte, sem apego, em busca da reencarnação. Em termos políticos, seria render-se à evidência de que saqueou a Petrobrás, comprou, de novo, a base aliada e mergulhar numa profunda reflexão autocrítica. No momento, negam tudo, mas isso o Livro Tibetano também prevê: o apego à vida passada é muito comum. Certas almas não vão embora fácil.

          A crise é um excelente psicodrama: o ceticismo político, a engrenagem que liga governo a empreiteiras, o desprezo pelas evidências, tudo isso vira material didático.

          Dizem que Dilma vive uma tempestade perfeita com a conjunção de tantos fatores negativos. Navegar num tempo assim, só com o preciso conhecimento que o velho Zé do Peixe tinha da costa de Aracaju, pedra por pedra, corrente por corrente.

          No mar revolto, sob a tempestade, os raios e trovões não obedecem aos marqueteiros. Por que obedeceriam?

          O ministro da Justiça vê o incômodo de um terceiro turno. Não haverá terceiro turno, e, sim, terceiro ato. E ato final de uma peça de teatro é, quase sempre, aquele em que os personagens se revelam. Por que esses olhos tão grandes? Por que esse nariz tão grande, as mãos tão grandes, vovozinha?


Fernando Gabeira é jornalista, escritor e político brasileiro. Nascido      em Minas Gerais e radicado no Rio de Janeiro, foi Deputado Federal por quatro mandatos, também foi candidato a Presidencia da República em 1989.


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terça-feira, 11 de novembro de 2014

O ÚLTIMO A CAIR

          Sei que não sou o único a pensar assim, mas é por que eu, pessoalmente, não encontrei, até agora, nenhuma explicação que justifique a proporcionalidade e a interatividade entre mim, quando criança, e a nossa chapada, mais especificamente com grandes árvores como: a “Oiticica de Batista”, que ficava à margem esquerda do rio, na passagem da igreja; o enorme Pé de Tamarindo (ficava no quintal da casa do meu bisavô, Licínio Pereira); o Pé de Braúna que reinou por muito tempo no Curral Novo; a mais conhecida de todas, a grande Gameleira, apensa à Pedra do Urubu, que se avistava de qualquer lugar da cidade; e o pé de Pau D’arco, como todas as já mencionadas que antes eu achava enormes e, hoje, não as vejo tão grandes assim, levando em consideração que apesar de ter crescido, não foi tanto que justifique tamanha diferença.
          O Pau D’arco, porém, não era, aos nossos olhos curiosos de criança, simplesmente uma árvore, pois ele tinha vida própria, era um ser soberano, e, como eu disse, majestoso, exuberante, secular, que reinava revolucionariamente no meio do caminho que dava para o Barreiro.Trago nas minhas reminiscências impressões profundas sobre “o pé de Pau D’arco” incrustado onde o caminho se abria em forma de um ipsilon, cujo braço esquerdo dava para o Recanto, propriedade de seu Toin Lima e filhos; e pelo braço direito seguia-se para o Barreiro e Santa Helena. Era uma árvore que impunha muito respeito aos que por lá passavam. Acredito que todas as outras árvores lhe rendiam homenagem e até os animais se curvavam perante tamanha nobreza. Era muito comum, naquela época, ouvir-se estórias de visagem, vistas por lá para quem se atrevesse passar sozinho depois da meia noite. Apesar de que muitas visagens, fenômenos inexplicáveis, também costumavam acontecer durante o dia e até, muitas vezes, para quem andava acompanhado.
          Lembro-me, e passo a relatar o caso de duas primas, uma das quais morava no Barreiro e a outra na metade do caminho, cujas identidades não posso revelar, pois não tenho autorização para tal, elas, porém, poderão identificar-se, ao tomar conhecimento desta publicação, se for de suas vontades, confirmando assim os fatos narrados a seguir. Era aproximadamente meio dia quando as meninas se dirigiam a pé à escola, que ficava na cidade a seis km de distância. Tudo corria naturalmente, como de costume, pois era praxe fazerem esse percurso diariamente. Neste dia, porém, ao aproximarem-se do Pau D’arco perceberam um som estranho e, ao avistá-lo, notaram que ao lado do tronco estava um homem, todo de branco, batendo com um objeto não identificado, em uma protuberância, que ainda hoje se vê, abaixo da metade do tronco do Pau D’arco. Tudo normal se o referido homem não medisse mais de três metros de altura. As meninas, coitadas, voltaram em desabalada carreira,  quase sem fôlego, tremendo de medo, relataram aos pais o ocorrido. Seguimos, mais do que imediatamente, para o local, onde, é claro, nada constatamos. E as meninas nunca mais tiveram a coragem de passar por aquele lugar. 
          Outro caso, bastante conhecido, aconteceu com o Tio que vinha da cidade,em seu jumentinho, no sentido cidade Barreiro e, ao aproximar-se do Pau D”arco, bem na bifurcação, no braço esquerdo do caminho avistou um vaqueiro, todo paramentado, tocando uma boiada, era, aproximadamente, cinco e meia da tarde, e para não atrapalhar a passagem dos animais, deu a volta numa moita branca e lá ficou aguardando a boiada passar. Acontece que a boiada nunca chegava debaixo do Pau D’arco, vinha... vinha... e nunca chegava. Mais do que assustado, ele saltou do jumento, e saiu em desabalada carreira e só parou quando chegou ao Barreiro, tão assustado e cansado, que naquele momento não teve condições de relatar o acontecimento, só depois de um certo tempo ficamos sabendo.
          Este aconteceu com um trabalhador de uma desmancha que ocorrera na Santa Helena. A função de forneiro exigia sua permanência por mais tempo no local de trabalho e ele só conseguiu deixá-lo depois das dez horas da noite e isto o obrigou a passar pelo pé de Pau D’arco, justamente, à meia noite. Ele conta que ao se aproximar do braço esquerdo do ípsilon do caminho, ao fazer uma curva que o deixava a apenas cem metros do tronco, avistou um homem todo de branco, com um machado na mão cortando-o bem no pé do tronco. Achou o fato muito estranho, ainda mais porque embaixo do Pau D’arco, onde deveria estar mais escuro, percebia-se uma luminosidade diferente. Mas como ele não tinha nada a ver com aquilo, pois a árvore não era dele, o caminho não era dele, nada ali era de sua propriedade, achou melhor fazer vista grossa e, para não atrapalhar o trabalho do estranho, em uma hora mais do que imprópria, fez um contornou a árvore saindo uns cem metros lá na frente, bem na hora em que o velho Pau D’arco tombava sobre as outras árvores menores, deixando um clarão e fechando o caminho nos dois sentidos. Ao chegar à cidade comentou o que tinha acontecido deixando muitos de nós entristecidos, perplexos e pensativos: quem seria capaz de praticar tamanha barbárie? O pior, ou talvez, o melhor estava por vir. No dia seguinte constatamos que o velho Pau D’arco encontrava-se, de pé, intacto, sem nem um arranhão, até hoje sem nenhuma explicação Plausível. 
          O tempo passou, eu cresci, e nunca mais passei por aquele caminho. E, há mais de trinta anos, eu via aquela árvore. Por motivos que a própria razão desconhece, por que, jamais eu esquecera, pois o velho Pau D’arco era como o meu saudoso Pai nobre, soberano, inesquecível.
          Desta vez, ao visitar o Barreiro, numa noite de muito calor fiquei relembrando meu Pai e tentando declamar umas estrofes de um verso triste de Fagundes Varela:
Eu amo a noite.
Eu amo a noite quando deixa os montes
Bela, mas bela de um horror sublime
E sobre a face dos desertos quedos
Seu régio selo de mistério imprime
Amo os lampejos, verde-azul, funéreos
Que às horas mortas erguem-se da terra,
E enchem de susto o viajante incauto
No cemitério de sombria serra
Eu amo a noite com seu manto escuro 
De tristes goivos coroada a fonte
Amo a neblina, que pairando ondeia 
Sobre o fastígio de elevado monte
Amo nas plantas, que na tumba crescem
De errante brisa o funeral cicio;
porque minh'alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio
Amo o silêncio, os areais extensos,
Os vastos brejos e os sertões sem dia
Porque meu seio como a sombra é triste
Porque minh'alma é de ilusões vazia
Amo o furor do vendaval que ruge
Das asas densas sacudindo estrago
Silvos de bala, turbilhões de fumo
Tribos de corvos em sangrento lago
Amo ao silêncio do ervaçal partido
Da ave noturna o funerário pio
Porque minh'alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de ilusões vazio
Amo a tormenta, o prepassar dos ventos
A voz da morte no fatal parcel;
Porque minh'alma só traduz tristeza,
Porque meu seio se abrevou de fel
Amo o corisco que deixando a nuvem
O cedro parte da montanha, erguido,
Amo do sino, que por morto soa,
O triste dobre n'amplidão perdido
Amo na vida de miséria e lodo,
Das desventuras o maldito selo,
Porque minh'alma se manchou de escárnios,
Porque meu seio se cobriu de gelo
Amo do nauta o doloroso grito
Em frágil prancha sobre mar de horrores
Porque meu seio se tornou de pedra,
Porque minh'alma descorou de dores
Como a criança, do viver nas veigas
Gastei meus dias namorando as flores
Finos espinhos os meus pés rasgaram
Pisei-os ébrio de ilusões e amores
Tenho um deserto de amargura n'alma
Mas nunca a fronte curvarei por terra
Tremo de dores ao tocar nas chagas
Nas vivas chagas que meu peito encerra
A paz, o amor, a quietação, o riso
A meus olhares não têm mais encanto,
Porque minh'alma se despiu de crenças
E do sarcasmo se embuçou no manto
          Na, tristeza destes versos, voltei ao passado e lembrei-me do velho Pau D’arco e logo ao amanhecer do dia seguinte perguntei a Paulo, meu irmão, o que fora feito da velha árvore, quando ele me respondeu: - Está no mesmo lugar. Só não existe mais o caminho para chegar até ela. Exclamei impaciente: hoje mesmo quero vê-la! E, no mesmo dia, ao cair da tarde, estávamos nós, meu irmão e eu, debaixo do velho Pau D’arco. Ao percebê-lo seco, sem folhas, já sem vida, tive a sensação que ele me aguardava por todos esses longos anos, para depois sucumbir. Fui acometido de uma tristeza sem precedentes, uma inquietação estranha, não sabia o que esperar o que fazer. Foi então que resolvi tirar uma foto, para guardar comigo, como última lembrança, pois sabia que não tardaria a cair e, desta vez, para sempre a velha árvore. Como me encontrava em um estado de letargia, não tenho como explicar, tirei apenas uma foto no meu celular e voltei pra casa, pesaroso, pensativo, ainda meio estranho.
          Já em casa, lá pelas sete da noite, já bastante refeito e conformado com o que ocorreu, fui olhar como tinha ficado a foto, que ficara arquivada no meu celular. Não acreditei no que vi! No lado esquerdo do Pau D’arco, via-se claramente, encostada no tronco, a cabeça de um ser humano. Quase que em desespero, mais ainda controlando a ansiedade e o medo, gritei por Paulo, que prontamente me atendeu, mostrando-lhe a foto perguntei o que ele via e ele me disse: – A cabeça de uma pessoa e eu sei quem é. A exclamação foi forte demais para mim, perturbado fiz o que jamais deveria ter feito deletei a foto.
          No dia seguinte, sob o feito dos raios do sol e refeito do que se passara no dia anterior, decidi voltar ao velho Pau D’arco e nas mesmas condições de temperatura, no mesmo horário e pelo mesmo ângulo e outros tantos mais tiramos mais de trinta fotografias, no entanto nada aconteceu. O respeito que me impõe os mistérios da natureza, o místico, o desconhecido, perdi a oportunidade de preservar um material muito importante para a análise de especialistas que pudessem explicar o que foi que eu vi. Outra oportunidade é improvável, pois, o Velho Pau D’arco está morto.
   
Por José Joel Rodrigues dos Santos(ZéJoel). Filho de Francisco Santos, reside em Macapá no Estado do Amapá. Em outra postagem do blog(QUEM LUTA VENCE), fizemos uma pequena biografia do autor. Veja também a postagem com o poema "DUAS VIDAS". Tem um livro publicado, intitulado "Barreiro: as primeiras águas" e continua escrevendo em verso e prosa. Tem colaborado com o nosso blog com certa regularidade. 




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segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SONETO DOS SETENTA


HOJE ATINGI A CASA DOS SETENTA,
RECORDE QUE NEM TODOS LOGRAM TER;
O ORGANISMO, EM GERAL, NÃO SE SUSTENTA
NA CAMINHADA RUMO AO ENVELHECER.

A SUBIDA SE FEZ DE FORMA LENTA,
MAS A DESCIDA PARECE CORRER;
OS SONHOS SE RAREIAM ENQUANTO AUMENTA
A POSSIBILIDADE DE MORRER.

ESSE FADO ACEITAR NÃO ME ATORMENTA,
POSTO QUE O DIA NEM POSSO PREVER,
E ASSIM O NÃO SABÊ-LO ME CONTENTA,

DESSA FORMA EVITANDO PADECER
DA ANGÚSTIA FATAL DA HORA CINZENTA
EM QUE JOÃO BOSCO DEIXARÁ DE SER...

TERESINA-PI; 09 DE NOVEMBRO DE 2014

Nascido em Francisco Santos, 70 anos completados no último domingo, dia 09/11/2014. João Bosco da Silva é bancário aposentado e tem dedicado grande parte do seu tempo a escrever em verso e prosa, abordando muitos temas, onde observamos o destaque dado a história da sua terra e do seu povo. Autor de inúmeras obras, onde citamos: Jenipapeiro, a Terra dos Espritados e o fabuloso Hino à Francisco Santos.


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quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O FENÔMENO "MUNDICO DE BORONGA"




RAIMUNDO NICOLAU DA SILVA
           (Mundico de Boronga)       

    DADOS BIOGRÁFICOS

           Raimundo Nicolau da Silva, mais conhecido como Mundico de Boronga, filho de Nicolau José da Silva, apelidado Boronga, de família local, e Carmina, vinda do Crato. Boronga, dono de mercearia no mercado, morreu cedo, no ano de 1949, deixando órfão seu único filho. A mãe, então, como meio de subsistência, passou a atuar no ramo de hotelaria e de confecção de bolos e doces. O fato é que soube criar muito bem o seu garoto, mulato educado, de fino trato. Eu, ainda criança, conheci-o como aluno do mestre-escola Miguel Guarani. Por ser a classe multisseriada, os adultos estudavam separados da garotada. Mundico, por ser o mais aplicado entre os rapazes, colocava sua carteira em um canto da sala e ali ficava a estudar, lendo algum livro ou fazendo exercícios e tarefas que o mestre passava.
            Assim foi durante os anos que frequentei a Escola Reunida Franco Rodrigues, nos idos de 1954/55. Fui estudar em Jaicós e, anos depois, encontro Mundico de Boronga feito mestre-escola daquele educandário de que fora aluno. Em poucos anos, acumulara assombrosa bagagem cultural, possuindo noções aprofundadas em vários ramos do saber. Como eu sempre tive propensão para as letras, aproximei-me bastante dele após minha entrada no ginásio, em Jaicós. Posso falar de suas qualidades de escritor, porque tive o privilégio de conhecer algumas de suas composições literárias: contos, crônicas, artigos, poesias...
            Neste caso se pode dizer que o aluno superou o mestre; mesmo porque Miguel Guarani, sem muitos recursos financeiros para sustentar a família, não tinha tempo de se dedicar aos livros, posto que vivia à roda das fazendas e sítios a oferecer o dom do seu coruscante saber para tirar da ignorância os filhos de remediados e ricos proprietários de terra e gado.
            A educação é um processo em constante construção e seu andamento poderá ser lento ou rápido, dependendo de certas circunstâncias, inclusive da tão alegada vontade política, podendo, em muitos casos, até regredir. Outrossim, por vezes fatores externos fazem surgir surtos de significativo desenvolvimento. Após pesquisas por mim realizadas, posso afirmar com segurança que o processo educacional em Francisco Santos é parecido com esse, apresentando seis fases distintas, a saber:
           1) a fase embrionária e assistemática, em que os pais mais financeiramente aquinhoados contratavam mestres-escolas ou professores particulares para desasnar seus filhos (nem todos) nas artes da leitura e da aritmética;
           2) a criação, em 1935, de nossa primeira escola, que funcionava em uma das salas da casa do senhor Licínio Pereira, sendo nomeada para o mister pedagógico sua filha Maria Rodrigues dos Santos, a conhecida e querida dona Mariinha;
           3) a fase Mundico de Boronga, de que falarei adiante;
           4) a criação do Ginásio Cristo Rei;
           5) a instalação do Curso de Ensino Médio Prof. Mariano da Silva Neto;
           6) a determinação legal de somente contratar através de concurso e pessoas com formação de 3º grau.
           Das fases 1, 4, 5 e 6 não cuidarei agora; ainda assim menciono a 4ª e 5ª etapas para referenciar Carleusa, que as propiciou e por isso merece todo o crédito em razão das profundas repercussões e benéficas consequências que alcançaram esses atos administrativos altamente republicanos, praticados durante duas de suas administrações à frente da prefeitura.
           Tratarei agora das fases 2 e 3 para, sobre a primeira tecer algumas pinceladas históricas e, em seguida, escrever o PANEGÍRICO ou merecido elogio a Mundico de Boronga, esse vulto quase esquecido e sumido da vida social, política e cultural de nossa Terra.
            Pois bem!     
        Em 1946, no governo de Rocha Furtado, foi construído, no Saquinho, o prédio que ficou conhecido como Casa Rural, de série única, para abrigar a primeira escola, mal equipada e com o mínimo instrumental pedagógico para escolas desse tipo.
            Sob o governo de Rocha Furtado, dona Mariinha, a primeira professora da escola, foi transferida para Uruçuí, visando a atender solicitações de políticos locais contrários à família Santos, que vinha há décadas fazendo a representação política do então Jenipapeiro. Vale lembrar que Leônidas de Castro Melo fora governador de 03.05.1935 a 23.11.1937 e interventor no período de 24.11.1937 até 09 de novembro de 1945, quando se deu a queda de Getúlio Vargas e ele despencou do nicho intervencionista. Durante todo esse tempo, a família Santos, em Picos e Jenipapeiro, atrelou-se a esse governante, beneficiando-se de todas as benesses que pudesse auferir desse governo de exceção.            Ao interventor destronado sucedeu o médico José da Rocha Furtado, eleito governador em eleição não apenas disputadíssima como tumultuada porque prenhe de violência e desmandos policiais, conforme atestam as crônicas jornalísticas da época que, por curiosidade histórica, andei compulsando.  
            Relativamente à transferência de dona Mariinha para Uruçuí, apoio-me não apenas no fato real de todos conhecido em Jenipapeiro como no que aconteceu em todo o Piauí, conforme atesta Cláudio Pacheco Brasil, em seu romance-denúncia Roda Viva: "Ultimamente já estão sendo feitas transferências, para lugares inaceitáveis, de funcionários transferíveis que não são livremente demissíveis". (p. 150). A essa acusação responde José da Rocha Furtado, em seu livro Memórias e Depoimentos: "Quanto à suspeita levantada de que possa haver risco de graves coações morais e físicas, já entremostradas por meio de demissões, remoções e nomeações de autoridades nas zonas atingidas pela renovação, cumpre-me esclarecer que não se justificam os receios manifestados. Com efeito, o Poder Executivo usou apenas do direito de substituir, como é de praxe, em todas as sucessões governamentais, ocupantes de cargos de livre nomeação por servidores da sua confiança. (p. 57). Ora, dona Mariinha era uma simples professora do interior, não ocupando, de forma alguma, cargo de confiança. Certamente ela não era concursada, mesmo porque, naquele tempo, esse instrumento não era utilizado para acesso ao serviço público.
            Tanto a desfaçatez das perseguições e transferências indevidas é verdade, que Djalma Veloso, meio século depois, saiu em defesa de seu correligionário, em seu livro O Político e Sua Época: "A UDN (...) queria promover perseguições políticas, transferindo servidores para cidades distantes de seus respectivos domicílios. (...) Naturalmente, aqui e ali, um caso ou outro possa configurar, por uma conjunção de fatores, perseguição política. Nada mais que isso". (p. 151).
            Claro que essa "conjugação de fatores" tinha nome: a combalida UDN local, agora vencedora e possuída de toda a ânsia pelo poder e com redobrado furor de vingança, após tantos anos sob o tacão político da família adversária.
            Para suceder dona Mariinha, foram nomeadas Da Luz e Carmosa (minha madrinha), aquela para lecionar no povoado; a outra, no Alto de Zé Lima, localidade próxima, bastante populosa. A essas foram se sucedendo professores e professoras leigas, por ali passando mestres dedicados e de renome como Joaquim Hipólito e Miguel Guarani, Teresinha de Chico de Franco, que logo abandonou o cargo para se tornar freira. Após a interinidade de outra Teresinha, esta filha do mestre Miguel, assumiu o cargo de professor o nosso homenageado Mundico de Boronga.
            Mas o que fez Mundico de tão especial que mereça registro em uma obra que se pretende histórica e que busca resgatar, especialmente, o cordel? há de muita gente se indagar, principalmente os mais jovens.
            Eu respondo.
            Idealismo, à luz da filosofia, "é a designação geral dos sistemas éticos que tornam normais as ideias como normas de ação; e, sociologicamente falando, consiste na criação imaginária de normas de ação tidas como perfeitas, apresentadas como objetivo a ser alcançado". (wiki - 19.07.14).  
            Raimundo Nicolau da Silva, menino órfão, pobre, possuía uma extraordinária percepção das coisas. Embora possa parecer contraditório, concebo-o como um idealista e, ao mesmo tempo, um pragmático, visto que transformou ideias em realidade, dentro das concepções de idealismo acima alinhadas.
            Como se explica isso?
         Já mencionei que Mundico de Boronga, como discípulo do mestre Miguel Guarani, era o mais esforçado, dedicado e, talvez, o mais inteligente de todo o alunado. Órfão, pobre, com uma mãe viúva a trabalhar diuturnamente para sustentá-lo e educá-lo, e ainda, aqui e ali, experienciando, embora de forma velada, o preconceito racial então muito forte em nossa comunidade, as solicitações da vida, para o seu próprio bem, inclinaram-no para o estudo. A bagagem cultural que conseguira acumular o premiou com o cargo de professor da velha Casa Rural, já então elevada à categoria de Escola Isolada Franco Rodrigues, ali por volta de 1957 ou 1958.
            Não obstante ser mulato, o exercício do cargo conferia status, e todo pai recomendava a seus filhos dispensar todo respeito possível ao mestre, segunda pessoa da trindade - família, escola, comunidade - a influenciar de maneira enfática na formação da personalidade do educando. Mirando-se em seu próprio exemplo, e verificando as precárias condições da escola em que lecionava, chegou Mundico à conclusão de que não conseguiria transformar seu ideal de cruzada educacional na nova realidade que pretendia implementar junto à sua variada clientela estudantil.
               Que fez, então?
         Criou sua própria escola, a que deu o nome de Educandário Cicerino.
     (Quanto a Cicerino, informaram-me que seria homenagem ao Padre Cícero, do Juazeiro. Uma vez que ele não era lá muito "católico", e em vista de ser leitor aficionado de qualquer tema ou assunto, quer-me parecer que o louvor se destinava a Cícero, o grande orador romano. Isso, porém, é mera ilação e só a coloco como forma de evidenciar o apreço e dedicação de Mundico por tudo que se relacionasse com cultura e educação).  
      De posse dessa ferramenta educacional, que instrumentalizou com tudo que era pedagogicamente possível na época, partiu para a tarefa de convencimento de pais e alunos sobre a importância do estudo, instrumento que estaria pondo à disposição de todos a preço módico.
            Após curto período de hesitação, as famílias aderiram à ideia e terminaram por "comprá-la" com gosto. Mundico de Boronga, o idealista pragmático, lançou-se à ingente tarefa de preparar alunos para prestar Exame de Admissão ao Ginásio. Ele conseguiu adeptos em todas as camadas sociais - ricas e pobres. Foram alunos seus, dentre muitos: Eduardo e Simplício de Izac, João Sacerdote, Carleusa, Mariana da Silva, Maria Dulce, José Osvaldo, Ivanisa, Elizeu de Zé Delfonso, Pascoal, Carlos de Zé Pedro, Evangelista e Maria de Preta...   Nenhum desses alunos foi reprovado no Exame de Admissão, em Jaicós ou Picos.       
             Descoberta a "corrida ao ouro da educação", daí em diante os pais de família de Jenipapeiro despertaram da inércia do semi-analfabetismo em que ficavam seus filhos, por falta de escola de 1º ciclo, ou seja, de um ginásio. Antes, o destino de muitos era emigrar pra São Paulo, Brasília e outras regiões ou cidades que oferecessem melhores oportunidades de sobrevivência, sendo o estudo pouco cogitado ou ficando em segundo plano, quadro que aos poucos começaria a mudar, quer entre os jovens de Francisco Santos, quer entre os descendentes de pais emigrados em decorrência da diáspora econômica, mormente nas décadas de 1960 e 1970.
           Claro que nem todos os aprovados no Exame de Admissão conseguiram concluir o ginásio em vista do pauperismo que, de modo geral, persistia entre nós naquele tempo. Não foi um "ataque" de modismo, mas uma posição mais positiva diante da vida. Tanto assim que, anos depois, com a instalação de um ginásio da CNEG, a pedido de meu pai e devido aos esforços de Carleusa, a prefeita de então, o entusiasmo da juventude pelo estudo redobrou. E a juventude, antes sem perspectivas, alçou altos vôos.
            As consequências de todo esse reposicionamento está hoje patenteada na enorme quantidade de doutores filhos da terra, em quase todas as áreas do conhecimento. O gatilho que ensejou o disparo da santa faísca da educação foi acionado por Mundico e sequenciado por Carleusa. De forma inequívoca, esses dois podem ser considerados mecenas da educação em nossa Terra.  
           Em decorrência da fase Mundico de Boronga, criara-se um intercâmbio muito grande entre nossa terra e Jaicós. Realizaram-se partidas de futebol, enquanto comerciantes faziam escambo de suas mercadorias (e continuam fazendo). Na parte cultural, o padre Mariano trouxe, inclusive, uma troupe de teatro amador para apresentação de dramas e comédias. Até no aspecto religioso houve intercâmbio. Isso era comprovado através das caravanas de peregrinos que demandavam os Morros dos Três Irmãos, situados no interior do município de Jaicós, festa tradicional que se realizava desde 1914.   
           Mas Mundico não se limitou apenas a transmitir conhecimentos curriculares. Ele foi além ao adotar, como formas suplementares de higiene e, portanto, de educação, o uso do lenço, o lavabo das mãos antes das refeições, o não andar descalço e até o não sentar diretamente sobre a calçada. "O chão tem micróbios, assim como as calçadas são cheias de vermes, e as mãos são infestadas de bactérias. Tudo isso pode concorrer para a infestação das verminoses e outras afecções danosas ao nosso corpo. Daí a necessidade de cuidados elementares como esses que recomendo".
             Sabia Mundico que um espirro ou uma tosse mais forte emitem no ar milhares de vírus e bacilos, vetores capazes de contaminar as pessoas. Nesse tempo, em Francisco Santos, a tuberculose ainda atuava de forma quase endêmica. Daí a recomendação do uso do lenço. Por isso também podemos atribuir a Mundico o papel de sanitarista.
            Dezenas de ex-alunos seus me deram recentemente esses testemunhos.
*  *  *
         A tarefa de escrever sobre Raimundo Nicolau da Silva, o quase esquecido Mundico de Boronga, se mostrou bastante espinhosa em certos aspectos de sua biografia, antes e depois de sua emigração. Não obstante possuir família numerosa - a família CRATO - nenhum parente foi capaz de me fornecer, com segurança, dados tão simples como data de nascimento, estado civil, grau de escolaridade, profissão e residência. Apenas Botiqueira (tia) afirmou que Mundico jamais saiu para estudar fora e que tudo o que aprendeu foi por "conta própria" e com mestre Miguel Guarani. Um autodidata, portanto. Já Noêmia (prima) disse que ele havia morrido, não sabendo dizer onde nem quando.      
            É como se ele tivesse sumido no ar, desfeito em vento.
            Entretanto, ouvindo dezenas e mais dezenas de pessoas, em Teresina, Picos e Francisco Santos, pude coligir alguns informes que permitirão formar um esboço da vida desse cidadão, após emigrar da terra natal. Consta que teria nascido entre fevereiro e março de 1936, contando, hoje, 68 anos. Que teria casado em Santos-SP com uma japonesa e que teria ido residir em Marília-SP. (Zé Ilia e Ana de Dadá). Simplício Morais Santos informa que ele esteve em sua casa, em Teresina, não sabendo precisar bem o ano. Acrescenta, porém, que ele teria vindo a nossa capital acompanhando um participante de um curso de especialização do IAA - Instituto do Açúcar e do Álcool, do qual seria professor.
            José Arlindo Lima, conterrâneo residente em São Paulo, o teria encontrado e com ele conversado bastante, ocasião em que lhe teria dito ser fiscal da Receita Federal, em Santos, onde possuiria um bom apartamento.
            Não se sabe ao certo a razão pela qual emigrou. Talvez razões políticas o tenham desgostado. Em primeiro lugar, como respeitado mestre-escola, fora convidado para a reunião em que seria definido o nome da cidade. Carta já marcada, a quase unanimidade apontou o nome do Cel. Francisco de Sousa Santos para paraninfar a futura cidade. Mundico teria discordado e sugerido os nomes de Areias ou Geralho, este bem mais consentâneo com a realidade agrícolo-econômica de então. Geralho: terra do alho; que gera alho.
            A sugestão não foi bem recebida e Mundico teria passado a ser mal visto pelos "grandes" do lugar. Como se sabe, em lugar pequeno, e muito mais naquela época, o professor gozava de muito prestígio. Correu falação de que Mundico não teria sido convidado para a solenidade de inauguração da cidade, a 24.12.1960. Pelo sim, pelo não, pouco depois ele deixou a direção da escola. Percebendo que não teria mais vez na terra, buscou nova vida em outro lugar - possivelmente São Paulo.
          O que relatam as poucas pessoas que ocasionalmente o encontraram, é que ele pede para não darem notícia suas a ninguém.
            Desgosto? Mágoa?

            Reticências...

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