sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

A difícil e necessária travessia do governo


          A missão mais importante do governo Temer é aprovar as reformas estruturais do Estado. Elas são fundamentais para resgatar a confiança da sociedade nas instituições democráticas e restaurar a credibilidade do governo. Elas são vitais para dar ao País a segurança jurídico-institucional de que investidores e empresários necessitam para retomar os investimentos e a geração de empregos. Sem as reformas do Estado, o Brasil continuará atolado no lamaçal da corrupção, do baixo crescimento econômico e da fragilidade institucional.

          O governo Temer e o Congresso fizeram mais para o fortalecimento das instituições em quatro meses do que em 12 anos de governo petista. As medidas propostas pelo Executivo e votadas pelo Legislativo terão enorme impacto na melhoria do funcionamento do governo e das instituições. A PEC do teto do gasto público não só impõe um limite ao crescimento das despesas públicas nos próximos 20 anos, como também gera um debate saudável sobre a aplicação dos recursos públicos. Governos serão obrigados a fazer escolhas difíceis e eleger prioridades.

          A aprovação na Câmara da reforma do ensino médio exigiu o enfrentamento do corporativismo da educação que ignora o aluno e só pensa em manter os seus privilégios. Se pensasse no aluno, teria vergonha de conviver com o fato de que 48% dos nossos jovens não terminam o ensino médio; e aqueles que concluem a escola não aprendem quase nada. O Pisa, um exame internacional de avaliação de estudantes de 15 anos, revela o desastre do ensino médio brasileiro. Foram avaliados 70 países, e o Brasil ficou em 59.º lugar em leitura, 63.º em Ciências e 66.º em Matemática. Não há nenhum país com a renda per capita do Brasil tão mal avaliado no exame. A reforma educacional vai começar a priorizar o aprendizado do aluno e oferecer um currículo que vai ajudá-lo a se preparar para o mundo do século 21.

          A nova Lei da Governança das Estatais criou critérios técnicos para a escolha de seus dirigentes e membros de conselho de administração. Trata-se de uma medida vital para acabar com as indicações políticas de pessoas desqualificadas que se apoderam de cargos estatais com o intuito de servir aos interesses dos padrinhos políticos e dos partidos, em vez de zelar pelo interesse da instituição e do Estado. Essa lei ajudará a melhorar a qualidade dos quadros técnicos, aprimorar a governança e aumentar a responsabilização (accountability) dos gestores públicos.

          Graças à aprovação da Lei 4.567/16, a Petrobrás não tem mais o monopólio de exploração do pré-sal. Esse monopólio afugentou empresas interessadas em investir na exploração do pré-sal. Aliás, a transformação da gestão da Petrobrás no governo Temer passará para a história como um dos mais exitosos casos de recuperação empresarial. O governo petista transformou a estatal num antro de corrupção a serviço de um projeto de poder do PT que quase quebrou a empresa. Mas a nova administração vem realizando um trabalho primoroso de saneamento da estatal, de desinfestação do cancro da corrupção que contaminou a cúpula da companhia e de transformação da estatal numa empresa respeitável, eficiente e a serviço da Nação.

          Prova do êxito dessa reviravolta é retratada pelo valor da ação da Petrobrás. Em janeiro, a ação da empresa, no governo Dilma, valia R$ 4; hoje, ela vale R$ 14. O mesmo processo de saneamento está ocorrendo em outras instituições, como são os casos do BNDES e da Eletrobrás. O BNDES voltou a ser um banco e deixou de ser uma banca que financia “campeões nacionais” e ditadores estrangeiros. Já a Eletrobrás vem se reerguendo após a desastrosa política do governo petista de impor à força a redução das tarifas de energia para o consumidor e meter goela abaixo um modelo de renovação de concessões que colaborou para destruir o sistema energético.

          Pela primeira vez em mais de 20 anos, temos um governo com coragem para enfrentar as reformas previdenciária e trabalhista. A primeira é vital para garantir o saneamento das contas públicas; a segunda é essencial para estimular a geração de empregos. Infelizmente, essas decisões, que terão profundo impacto na reconstrução do Brasil do futuro, não estão sendo tratadas com a devida importância e destaque pela mídia.

          A irresponsabilidade da imprensa em dar um peso desproporcional às intrigas políticas e aos escândalos de corrupção, quando cotejados com a aprovação das medidas que ajudam a reerguer as instituições que foram destruídas e aparelhadas na era petista, contribui, de maneira nefasta, para insuflar a chama do ódio contra a política e contra os políticos. Em vez de cumprir o seu papel de informar, esclarecer e ajudar o eleitor a formar a sua própria opinião sobre os fatos, a maneira irresponsável como a mídia vem tratando o noticiário político se assemelha aos blogs e sites que pregam soluções radicais, golpes ou medidas autoritárias.

          Fomentar o descontentamento e o radicalismo contra a política e políticos é uma maneira perigosa que contribui para a volta do populismo, que nos deixou como herança a pior recessão econômica do País, a mais grave crise política do século 21 e o maior número de desempregados da história. O maior risco para o Brasil em 2018 não é o governo ou o Congresso; são os eleitores. A desilusão com a política e com os políticos pode levá-los a votar na nossa fauna de populistas tanto à direita quanto à esquerda do espectro político ideológico, o que levará o País novamente ao caos econômico, político e social. Numa democracia, governo ruim é resultado de más escolhas dos eleitores.

          A liberdade, a democracia e a soberania das leis só existem no âmbito do Estado e do exercício da política. Fora da política, restam-nos apenas a tirania e o populismo, duas forças destruidoras da política, da democracia e das instituições, como bem ilustram a Coreia do Norte, a Síria e a Venezuela.

Por Luiz Felipe d’Ávila, cientista politico, professor e palestrante.
É Diretor-Presidente do Centro de Liderança Pública, uma entidade apartidária e sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento e à formação de líderes políticos que estão empenhados em promover mudanças transformadoras e a melhorar a qualidade e a eficácia da gestão pública.
Foi editorialista dos jornais Gazeta Mercantil e O Estado de S. Paulo e comentarista político[3] das TVs Manchete e Record. Em 1996, Luiz Felipe fundou a Editora D’Avila, responsável pela publicação de revistas como República e Bravo!, uma das maiores revistas de arte e cultura do Brasil. A revista Bravo! foi vendida para a Editora Abril, onde Luiz Felipe atuou como Diretor-Superintendente entre 2002 a 2006.

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quarta-feira, 9 de março de 2016

Colírio



Raislane Moura

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CANTORIAS E CANTADORES


ORIGEM DA CANTORIA, CANTADOR E DA VIOLA

          A nossa poesia popular floresceu em Provença, sul da Franca, no Século XI, através dos trovadores Regréis e Jograis. Na Espanha a poesia floresceu através dos palacianos. Foi em Homero, maior dos rapsodos, cantando as façanhas de Ulisses diante de Circe e do gigante Polifemo, que Virgílio encontrou a fonte inspiradora para a realização de sua obra monumental.
          Eram os trovadores da Provença, que levaram a alegria aos senhores feudais, enclausurados nos seus castelos de guerra. Enfim, foi Dom Diniz, maior monarca da Dinastia de Borgonha, que se proclamou discípulo dos provinciais, em suas cantigas de amigo e de amor. Todavia, ninguém melhor do que o poeta Antônio Ferreira, de Portugal, falou de sua grandeza, quando disse: Regeu, edificou, lavrou, venceu, honrou as musas, poetou e leu".
          A fusão da poesia local portuguesa com a poesia dos Trovadores Jograis de Provença fez surgir novas formas poéticas de linguagem de seus famosos poetas: João Soares de Paiva, Paio Soares de Traveiros e outros. "Mas, coube ao Brasil o privilégio do aparecimento do legitimo cantador de Viola, com Gregório de Matos Guerra, que deixava a Universidade de Coimbra fazendo verso de protesto a direção daquele estabelecimento de ensino. Nascido na Bahia, no Sec. XVII e o primeiro doutor brasileiro. Seguido pelo Padre Domingos caldas Barbosa, que, também, improvisava ao som da viola".
          A poesia, atravessando a fase colonial, veio alcançar seu apogeu na pequena Paraíba de Augusto dos Anjos e de José Américo, pois quiseram as divindades do Olimpo que, naquele torrão, bendito pelas sacrossantas musas do longínquo Parnaso, nasceram os maiores cantadores que tem notícia na história do folclore nacional.
          "No Nordeste, os jesuítas catequizavam por meio da poesia por ficar mais fácil de conservar a mensagem na memória, seguindo assim o estilo da Grécia Antiga".
          Ninguém melhor do que o cantador pode sentir a variedade de quadros de que o cotidiano nos apresenta. Traz dos sertões para as cidades o retrato da natureza, na sua expressão criadora, bem como o do rigor que castiga dentro de suas leis imutáveis.
          No entender de alguns estudiosos (intelectuais) o cantador tem uma imagem completamente distorcida da sua formação verdadeira. Isto porque já foi registrada a presença de cantadores caracterizados de vaqueiros, por incumbência de pessoas que fazem folclore com pouca profundidade no assunto. Então havemos de concluir que o cantador, o legítimo repentista, e o mais feliz dos imortais, porque seu mundo não é o da maldade, não é do egoísmo, e, sim, o doce paraíso das imaginações criadoras. Citaremos a sábia e patriótica expressão de Antônio Girão Barroso, conhecido escritor cearense: "Ai do país que abandona as raízes da cultura".
          A cantoria de versos improvisados ao som da viola é uma arte que floresceu no meio rural do Nordeste, especialmente no sertão, e que só aos poucos vem conquistando público das grandes cidades. A razão principal desse fato e possivelmente, o número crescente de pessoas que se deslocam do interior para as metrópoles em busca de melhores condições de vida, e levando consigo hábitos culturais profundamente enraizados.
          "No começo deste século, a figura tradicional do cantador era a do indivíduo de inteligência aguda, escassas condições financeiras, muitas vezes analfabetos ou pouco letrados, cantando de feira em feira seus versos geniais que garantiam a própria subsistência".
          Embora o tema - nomes e datas fundamentais em torno dos poetas populares no Nordeste - já tenha sido rastreado por numerosos autores, vamos resumir o que Atila de Almeida condensou, a propósito, em recente ensaio intitulado "Réquiem para a Literatura Popular em verso, também dita de cordel", in "Correio das Artes", João Pessoa, 01.08.1982.
          "1830 é considerado, historicamente, o ponto de partida da poesia popular nordestina. Em torno dessa data nasceram Urgulino do Sabugi - o primeiro cantador que se conhece - seu irmão Nicandro, ambos filhos de Agostinho da Costa, o Pai da Poesia Popular".
          Nascidos na Serra do Teixeira (PB), entre l840 e 1850, foram seus contemporâneos os poetas Germano da Lagoa, Romano da mãe D'Agua e Silvino Pirauá. E já contemporâneos destes, Manoel Caetano e Manoel Cabeleira. São os mais antigos cantadores conhecidos, todos chegando à década que se iniciou em 1890. A década que começou em 1860 viu nascerem grandes nomes, como João Benedito, José Duda e Leandro Gomes de Barros. Mais adiante, na década que se iniciou em 1880, nasceram Firmino Teixeira do Amaral, João Martins de Ataíde, Francisco das Chagas Batista e Antônio Batista Guedes.
          Diferente do que acontecia em qualquer parte do Brasil, sabe-se que no Nordeste, o cantador independia de acompanhamento. No fim de cada pé, terminando-se cada linha do verso, dava um arpejo na viola ou rebeca. Entre um verso (estrofe) e o seguinte, entoado pelo antagonista executava-se algum trecho musical, alguns compassos.
          "Os velhos cantadores do Sertão Nordestino do Brasil só tocavam as violas ou soavam os pandeiros nos intervalos dos cantos. Desafio simultaneamente acompanhado da viola é posterior a 1920”.
          “Nossos repentistas, cantadores e poetas populares, foram, no entanto, até cerca de 1920 ou de 1930, uma expressão de intelectuais dos sítios, das fazendas, das vizinhanças, do mundo em que vivera. Os desafios dos violeiros são tão velhos quanto o mundo".
          A viola, como as demais criações do homem, tem sua presença marcante desde sua criação, até os dias atuais. A viola é um instrumento de caráter onomatopaico, embora haja quem lhe atribua origem germânica. É a designação genérica de uma família de instrumentos de corda, tocados com arco de crina, produzindo som mais melancólico, menos claro e de timbre nasal.
          O primeiro instrumento do cantador sertanejo parece ter sido a viola, menor que o violão (guitarra espanhola), do qual não há notícia, entre nós, antes do Sec. XVIII. A viola de pinho, viola de arame, com 5 ou 6 cordas duplas, é citada entre outros aqui, pelo Padre Fernão Cardim. Antigamente, depois de cada vitória o cantador amarrava uma fita colorida em suas cravelhas.
          Entre os poetas populares, ainda preserva-se algumas superstições quanto ao uso da viola. Diz-se que esse instrumento sofre a influência da lua. Na lua nova e na força da lua não se guarda viola afinada, porque ela pode ficar corcunda, entortar e rebentar as cordas. Madeira para viola deve ser cortada nos meses que não tem "r": maio, junho, julho e agosto, e na minguante, para nunca apanhar caruncho.
          Há um certo consenso entre os cantadores, que o repentista que se preza não carrega viola debaixo do braço, e sim, na mão, segurando-a pelo braço. A viola é uma mulher e quem sai com ela na rua, a leva de braço dado. A axila é lugar de escorar a muleta e não a viola, que carregada debaixo do braço fica reumática, não afina mais, fica mancando das cordas.
          A viola foi difundida na Europa no Sec. XIV. Ela surgiu depois da rebeca medieval e antes da atual família de violinos. É possível que tenha sido o primeiro instrumento de cordas que o Brasil conheceu, importado de Portugal. Os jesuítas a empregavam nos seus trabalhos de catequese junto com o pandeiro, tamborim e a flauta de madeira.
          Lendo a antologia de nossos poetas populares, constatamos que somente três cantadores, não se apropriavam do recurso da viola: Inácio da Catingueira ( Manoel Luis de Abreu), negro, ex-escravo; e Fabião das Queimadas ( Fabião Hermenegildo Ferreira da Rocha), norte-rio-grandense, que cantaram no século passado, utilizando um pandeiro e Cego Aderaldo (Aderaldo Ferreira de Araujo), que cantava acompanhado ao som de sua rabeca.
          A cantoria quase sempre dura duas horas, às vezes até noites inteiras. Geralmente, o desafio se desenrola num tremendo duelo, numa verdadeira briga poética, cuja arma o verso rápido, gracioso e pitoresco, cheio de vivacidade e vigor. Os cantadores do Ceará e dos Estados Nordestinos, diferem muito dos cantadores de outras regiões do país, pelas modalidades que adotam e pela melodia que acompanham os seus repentes, ao calor das pelejas.
          "Nas festas populares, nos festejos folclóricos é indispensável à presença desses trovadores, um dos pontos altos do folclore cearense".

CONCEITO DE CANTADOR - VISÃO DOS MESTRES

          Silvio Romero foi o nosso primeiro homem de letras a se interessar pelos motivos populares, inserindo em livros e lendas, as superstições, os cantos e contos populares no Brasil. Segundo ele, o cantador é homem de poucas letras, rústico, sem conhecimento de gramática ou quase sempre analfabeto; e o cantador violeiro, intérprete fiel, dos costumes, das histórias e do heroísmo de seu povo, esse audaz e intrépido povo nordestino.
          Na visão de Luís Câmara Cascudo, que dedicou a maior parte de sua vida ao folclore, assim define cantador: - "Representantes legítimos de todos os bardos menestréis".
          Gustavo Barroso, falando sobre a poesia popular, afirma “a poesia é sempre obra de indivíduos cultos ou semicultos, que desce ao povo, se batiza nas águas lustrais de seu oralismo e se espalha pelo mundo como um pólen fecundante".
          Manoel Bandeira, nome respeitabilíssimo de nossas letras, confessa-se humilde, diante do cantador, conforme registro que fez em seu livro estrela da Tarde: “... que poeta é quem inventa em boa improvisação, como faz Dimas Batista e Otacílio, seu irmão, como faz qualquer violeiro, bom cantador do sertão".
           Guilherme Neto conceitua os cantadores, ou violeiros repentistas, são cantores populares, os geniais poetas e versejadores do sertão. Andam sempre em duplas, com a viola dentro de um saco, muitas vezes a pé, ruminando o debate, preparando perguntas, arrumando as ideias, dando asas a imaginação.
          "cantador ou simplesmente repentista - poeta popular da região nordestina, que ao som da viola, duplado, decantam seus versos, encantando os rincões brasileiros".
           Na concepção de Leonardo Mota (Dr. Leota), anos a fio empreendeu várias excursões pelo "interland cearense ", vendo de perto, anotando e escrevendo as mais belas sugestivas páginas do folclore brasileiro, como sendo a figura do cantador violeiro, o representante legítimo do povo nordestino - são os poetas populares que perambulam pelos sertões, cantando versos próprios e alheios; mormente os que não desdenham ou temem o "desafio", peleja intelectual em que, perante o auditório, ordinariamente numeroso, são postos em evidência os dotes de improvisação de dois ou mais vates matutos.
          Segundo Luis Wílson, o cantador é como o rapsodo canta acima do tom em que o instrumento é afinado e abusa dos agudos. É uma voz hirta, dura, sem sensibilidade, sem floreios, sem doçura. Canta quase gritando, as veias entumecidas pelo esforço, a face congesta, os olhos fixos para não perder o compasso, não musical, que para eles é quase sem valor, mas a cadência, o ritmo, que é tudo.
           No entendimento de Pedro Ribeiro, no livro intitulado: "Nos Caminhos do Repente", de sua autoria, equivale dizer cantador ou violeiro, para definir como sendo o representante máximo do repente. Com invulgar poder criativo, os menestréis do passado ampliaram consideravelmente o acervo do repente com a criação de novos estilos.
           Na visão de Orlando Tejo, no livro: "Zé Limeira, poeta do absurdo", sintetiza o que vem a ser cantador: Os cantadores constituem imensa legião de homens que amam, sonham, sofrem e brincam de viver no mundo, pescando estrelas, caçando ilusões, plantando tardes, colhendo auroras, levando a sua imagem sutil e profunda, tímida e vigorosa ao povo ávido de poesia que os ouve embevecido.
          Inúmeras são as conceituações desses rapsodos da poesia nordestina, se levarmos em consideração a expressão literal da palavra e a função desses mensageiros do improviso e da felicidade.
          A pesquisa não se deteve muito a outras concepções de pesquisadores de cultura popular, por considerar que o assunto será bastante enfatizado nas páginas seguintes da monografia, procurando mostrar a importância do poeta-repentista do nordeste brasileiro.

ESTILOS DE CANTORIAS

           A região nordestina assinalada pelo estigma da seca, marcada no quadro dantesco do sertão adusto, com suas árvores atrofiadas e nuas, é a terra onde nascido e vivido, sofrendo e cantando, os maiores valores da poesia popular, expoentes da inteligência inculta, mestres consumados nos repentes, insuperáveis nos improvisos.
          Diversos são os gêneros da poesia popular do nordeste brasileiro. Além de vários gêneros poéticos adotados pelo violeiro sertanejo, cantando só, ou alinhando em dupla para o desafio.
          Estas não se acorrentaram a regras imutáveis, inexpressivamente sem vibração. Ao contrário, quase todas as formas vêm evoluindo, adquirindo plasticidade, tomando feição renovadora, apurando o estilo, progredindo. Essas matizes, muitas vezes revelando um colorido cintilante, ostentando o poder imaginativo, comparativamente aos arranjos musicais celebrizando compositores, atestam o processo evolutivo, reformista, na arte de cantador nordestino, no decurso do século vigente.
          A cada estilo de cantoria, para tornar mais fácil ao leitor entender a sua conceituação, exemplificamos com glosas e repentes de vates nordestinos, decantados na Região Jaguaribana.
          Entre as criações dos poetas clássicos, que vieram a ser usadas pelos nossos repentistas, estão as modalidades a seguir especificadas:
           SEXTILHAS - Talvez, por ser mais fácil, seja o gênero mais preferido pelos nossos cantadores, principalmente no início das apresentações. Seu criador foi Silvino Pirauá Lima. A sextilha é uma estrofe com rimas deslocadas, constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete silabas, nomes que tem a mesma significação.
          SETE LINHAS OU SETE PÉS - No inicio do século atual, o cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador fez uma adaptação a sextilha, criando o estilo de sete versos, também chamado de sete pés, rimando os versos pares até o quarto, como na sextilha; o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto.
          MOURÃO - Muito interessante é o Mourão, gênero que se canta em dialogo. Sua forma originaria, de seis versos, foi substituída pela de cinco, ainda no século passado. O Mourão, na sua essência, conceitua-se como o desafio natural. Gênero poético dos mais difíceis nunca desdenhados pelos nossos repentistas ajustasse-lhe melhor a denominação de trocadilho, porque, em dialogo, os articulistas se revezam nos versos e nas estrofes. Exemplificamos aqui, apenas uma de suas variantes, no caso, "o mourão voltado".
          DÉCIMA - Embora de origem clássica, é a decima um estilo muito apreciado, desde os primórdios da poesia popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estância a receber a denominação de glosa.
          GALOPE A BEIRA MAR - Gênero muito apreciado pelos apologistas da poesia popular, juntamente com o martelo, recebeu a denominação de décima de versos* compridos. O galope e assim chamado em virtude de ser empregado mais em temas praieiros. Foi criado pelo repentista cearense "Zé Pretinho", natural da cidade de Morada Nova.
          TOADA ALAGOANA - É um gênero pouco usado, porém muito bonito, em virtude das rimas encadeadas de forma agradável a toada.
          REMO DA CANOA - Estilo originário das emboladas de coco, recentemente adaptado para as cantorias de viola, uma inovação do poeta repentista Ivanildo Vilanova. Sua toada melodiosa é muito bonita e suave, sendo bastante apreciada pelos apologistas da poesia popular.
           BRASIL CABOCLO - Considerado um dos estilos mais preferidos pelo repentista nordestino. Consiste em uma estrofe de dez versos de sete sílabas, semelhante ao estilo da décima, isto é, seguindo o mesmo sistema das estrofes de dez linhas.
           MARTELO AGALOPADO - O martelo atual, criação do genial violeiro paraibano Pirauá Lima, e uma estrofe de dez versos, em decassílabos, obedecendo a mesma ordem de rima dos versos da decima. Todavia, sua denominação não vem do fato de ser empregado como meio de os cantadores se martelarem durante suas pugnas. Sua significação esta ligada ao nome do diplomata francês Jaime de Martelo, nascido na segunda metade do Sec. XVII, que foi professor de Literatura da Universidade de Bolonha, portanto, o criador do primeiro estilo.
           O BOI DA CAJARANA - A transformação de mote em estilo da cantoria tem sido a principal criação da Literatura de Cordel Oral, nas últimas décadas do século XX. De autoria de Ivanildo Vilanova e Adauto Ferreira, originou-se do mote: "Eu quero o boi amarrado/No pé da cajarana. A consagração do estilo foi muito rápida, mesmo com a quebra da métrica no segundo verso do mote.
          O QUE É QUE ME FALTA FAZER MAIS - Derivado da décima, O Que é Que Me Falta Fazer Mais, é um mote decassílabo, que transformou em gênero pela extraordinária aceitação popular. Rico em conhecimentos e doce em musicalidade tende a permanecer por muito tempo, na primeira linha da preferência dos amantes da cantoria.
          GEMEDEIRA - Pela própria denominação do gênero, vemos que serve para temas gracejantes. É a gemedeira um estilo de poesia, caracterizado pela interposição de verso de quatro, ou, raramente duas silabas, entre a quinta e a sexta linha das sextilhas, formado pelas interjeições: “ai e ui! ou ai! hum! Esse estilo, geralmente é cantado de forma jocosa e humorística.
          QUADRÕES - Ao longo do tempo, o quadrão tem sido o gênero a receber o maior numero de alterações, não só na sua forma interna, mas, também, na estrutura das estrofes, em geral.
          REBATIDO - É originário da oitava com versos septissílabos. Os versos dois e quatro terminam, obrigatoriamente com "ido", para rimar com estribilho "No oitavão rebatido", na última linha da estância.
          DEZ PÉS DE QUEIXO CAÍDO - este gênero, ainda em voga, esta incluído na décima, apresentado, no final de cada estrofe, este estribilho: " Nos dez de queixo caído".
          ROJÃO PERNAMBUCANO - Diz-se de uma estância de dez versos heptassílabos nos dois últimos versos, repetidos pelos cantadores. Esse gênero foi gravado pelos cantadores Ivanildo Vilanova e Severino Feitosa.
          ROJÃO QUENTE - É mais uma das recentes criações originárias do mote, que vem, ultimamente, oferecendo novos estilos ao já expressivo acervo do repente. Coqueiro da Baia/quero ver meu bem agora/quer ir mais eu vamos/quer ir mais eu vambora. A obrigatoriedade de metrificação é apenas para a sextilha, que utiliza versos setissílabos, com a mesma métrica e acentuação. Estilo bastante utilizado para encerrar as cantorias.

TIPOS DE CANTORIA

          Não há na Literatura Popular Nordestina, uma divisão clássica da cantoria de viola, propriamente dita, dentro do seu aspecto conceitual. Consultando diversos autores do gênero, concluímos que nas cantorias de Literatura Oral do Nordeste, encontramos dois tipos de poesias; um tradicional que está sempre na memória dos cantadores, e que serve justamente para encher o tempo, denominada de "Obra Feita"; outro, é o improvisado, é o repente, o verso do momento, dito face um fato momentâneo, ou a propósito de uma pessoa presente. Este último é o autêntico improviso, muito comum, sobretudo no desafio.
          Conversando com poetas-repentistas e apologistas da poesia matuta, foi possível identificarmos os tipos de cantorias mais utilizados da atualidade, sem prejuízo do conceito retro citado. Essas conceituações podem ser modificadas, é lógico, com um estudo mais acurado sobre o assunto. A divisão abaixo, a nosso modo, parece ser a que mais retrata a realidade presente, sem, contudo, perder a essência da poesia decantada e improvisada ao som da viola.
          Ouvindo atentamente as pessoas consultadas, constatamos que a cantoria pode ser classificada em seis variantes a seguir:
I) Pé de Parede; II) Dos Compadres; III) Especial; IV) Ocasional; V) Convencional; e VI) De Feira.

          Para melhor entendimento do leitor, procuramos definir cada uma das modalidades, consoante declarações dos entrevistados, objetivando dar uma noção geral das variedades de cantorias no Nordeste Brasileiro.

1) Cantoria "Pé de Parede - Essa modalidade frequentemente utilizada, após o término dos festivais de violeiros. Os poetas-repentistas são solicitados para fazerem suas apresentações para um pequeno número de apologistas admiradores da poesia matuta. Geralmente, apresenta-se duas ou mais duplas, com a utilização da famosa bandeja. É chamada Pé de Parede, pois, os cantadores ficam encostados em uma parede, sentados em duas cadeiras, sem recurso de som ou palco de cantoria.

2) Cantoria dos Compadres - É a forma que está mais sendo utilizada atualmente. O cantador aproveitando o espaço radiofônico de seu programa, para marcar cantoria com compadre, amigo e/ou parente próximo, de livre e espontânea vontade, sem o prévio entendimento com o dono da festa. Essa foi a única maneira que o repentista encontrou para realizar as suas cantorias.

3) Cantoria Especial - Como o próprio nome diz, ela é realizada em circunstâncias especiais. É muito comum esse tipo de cantoria em festas de casamento, batizado, bodas de ouro, aniversário, etc. O promovente contrata os poetas-repentistas por um preço justo e convida amigos e parentes das localidades próximas a se fazerem presentes a festa.

4) Cantoria Ocasional - É pouco usual nos dias atuais, todavia, ainda é praticada em algumas regiões do país. É aquela em que o cantador viajando; chegando a um determinado lugar, pede autorização ao dono da casa para realizar uma cantoria. Este, aceitando o pedido, responsabiliza-se por convidar amigos e vizinhos da localidade, para assistirem a peleja.

5) Cantoria Convencional - É a chamada famosa cantoria tradicional. Com o advento da televisão, do rádio, do cinema, etc., se não houver um incentivo por parte dos órgãos competentes, tende a desaparecer com o passar dos tempos. Consiste na porfia em que o promovente convida os poetas-repentistas para decantarem em sua residência, por uma quantia pré-estabelecida entre as partes, para uma platéia de apologistas presentes ao embate poético. Essa gradativamente está sendo substituída pela cantoria dos compadres.

6) Cantoria de Feira - É aquela em que seu desenlace se dá em feiras livres ou em botecos e bares adjacentes. Muito embora seja bastante utilizada por alguns violeiros, no entanto, não é apreciada pela maioria dos menestréis da viola. Essa forma de cantoria é muito criticada pelos cantadores profissionais, pois, consideram um desagravo a profissão de cantador, haja vista, que a noção que se tem é que essas pessoas cantam seus versos por uma quantia ínfima de dinheiro, prejudicando os grandes talentos da poesia popular.

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segunda-feira, 7 de março de 2016

Ninguém está acima da lei


              Noticiada pelo jornalista Josias de Sousa em seu blog no UOL, a lição de dignidade e coerência ministrada por Pedro Taques foi virtualmente ignorada pelos grandes jornais. Pior para os leitores. A réplica do governador de Mato Grosso a outro falatório intempestivo da presidente da República é muito mais surpreendente e relevante do que a algaravia de devotos aflitos com a chegada da Lava Jato às portas do deus da seita.

          Na noite de sexta-feira, Dilma reuniu-se em Brasília com um grupo de governadores para tratar do alongamento das dívidas dos Estados com a União. Já ao abrir o encontro, declarou-se “indignada” com o tratamento (que qualificou de “desrespeitoso”) dispensado a Lula pelo juiz Sérgio Moro. Ela enxergou “um abuso de autoridade” na condução coercitiva autorizada por Moro. “Bastava convidar”, recitou. “Lula não se negaria a prestar os esclarecimentos”.

          Ex-procurador da República, Taques dirigiu-se à “presidente” (e não “presidenta”) para falar em nome do país que presta: “Eu não sairia desta sala com a consciência tranquila e não respeitaria o bom povo de Mato Grosso, que me mandou aqui, se não expressasse minha opinião”, ressalvou. “Entendo que não houve abuso ou perseguição. Ninguém está acima da lei. Todos, inclusive eu, podemos ser investigados. A lei não pode servir para beneficiar amigos nem para prejudicar inimigos”.

          Filiado ao PSDB, Taques ensinou que um governador eleito pela oposição tem, mais que o direito, o dever de discordar publicamente de qualquer adversário político ─ mesmo que se trate do presidente da República. Também ensinou que, para cumprir tal dever, basta não ter medo. E ter vergonha na cara, naturalmente.


Augusto Nunes é jornalista e apresentador. 
Trabalhou nos Diários Associados, nas revistas Veja, Época e Forbes. Nos jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Zero Hora. Atualmente é o apresentador do Roda Viva e tem uma coluna na Veja.


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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Colirio



Suelane Barros

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domingo, 17 de janeiro de 2016

DINAMISMO

          

          Em novembro de 2011, fizemos uma postagem no blog intitulada O Poder em Jogo, na qual abordávamos o ingresso de Valdinar Lima no grupo oposicionista. A sua adesão e de outras lideranças, não foram suficientes para a vitória de Carleusa Santos, pois esta concorria com o atual prefeito, que favorecido pela legislação eleitoral vigente concorria à reeleição, e embora tendo o mesmo perfil político da sua concorrente(popular e carismático), havia o desgaste natural do exercício do mandato, mas Édson Carvalho e Luís José chegaram vitoriosos ao final da jornada.

          Ele continua sendo um quadro de valor, mas o que pretendemos abordar neste post, é a importância das lideranças e o seu tempo político. É inegável que foi uma adesão importante para aquele momento político em que vivíamos. Já para as eleições deste 2016, ele perde muito da sua força eleitoral. Tanto que não se fala mais em candidaturas, secretarias, nem mesmo é mais uma liderança que faz frente diante dos compromissos políticos do seu grupo atual.

          Em outra postagem, intitulada “Quem com ferro fere...”, onde avaliávamos a adesão de Sandoval Santos à candidatura de Edson e Luís José. Mesmo tendo feito o caminho de volta ao seu antigo grupo político, já não é mais uma adesão impactante, pois, se antes o sentimento que o movia era da raiva, mágoa. Hoje ele alinha-se politicamente a candidatura de James, simplesmente pelos laços de amizade fraterna que os une, aliás, tem sido um traço marcante e que tem norteado Sandoval nas suas decisões políticas: o sentimento de amizade, lealdade.

          Levantaremos uma questão para avaliações futuras: Maurício do Feijão terá o mesmo destino dos líderes acima citados? A sua adesão foi fruto apenas de mágoa por não ver atendidos os seus pleitos? Ou fez um arranjo político, com a possibilidade de ocupar futuramente algum espaço na administração, caso o seu atual candidato consiga eleger-se? Será Maurício mais uma vítima do nosso sistema político eleitoral e ganhará como prêmio o esquecimento precoce? Só o tempo dirá. 

          Mas a política é realmente muito dinâmica, pois quem imaginaria que Maguineide Santos, que foi derrotada fragorosamente nas últimas eleições se tornasse uma candidata tão competitiva quatro anos depois? Pré-candidata, com o apoio do seu filho, médico Dr. Bruno Santos, que atualmente ocupa o estratégico cargo de Diretor Clínico do Hospital Regional Justino Luz, de Picos. Conta com a simpatia da família Benjamim Carvalho, que não apresentarão candidato proporcional e certamente lhe darão apoio, muito pela ligação partidária, mas também pela amizade e pelos laços familiares que os unem.



          Outro possível candidato que concorrerá com enormes possibilidades, e certamente se elegerá com uma votação consagradora será Chicão de Anchieta. O ex-vereador conta com o apoio integral da ex-prefeita Carleusa Santos, reconhecidamente a maior líder política individual de Francisco Santos. E concorrerá numa faixa que historicamente teve muitos candidatos, pois a família Rodrigues Santos, sempre teve 2, 3, até 4 concorrentes. E ele hoje, caso se confirme a sua candidatura, será candidato único de uma tradicional família que sempre elegeu seus candidatos.


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P.S. - Esta é a primeira de muitas postagens que pretendemos fazer durante este ano eleitoral. Sabemos que este é um assunto que desperta paixões, discussões acaloradas. E a continuidade ou não das postagens de conteúdo político, vai depender única e exclusivamente do amigo internauta. Pois temos ferramentas que medem o interesse de vocês: A quantidade de acessos e os comentários.


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