quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

GRÉCIA

                                         Ensaio: João Bosco da Silva

            A GRÉCIA ERA (e continua sendo) um país montanhoso, retalhado e pobre, banhado pelo mar ensolarado. Os helenos, depois denominados gregos, instalaram-se no país em face da invasão dos acaicos (± 1.200 aec) [1] e, em seguida, pelos dórios depois de 1.200. Por volta de 800, surgem dois grandes poemas de Homero – a Ilíada e a Odisseia – que narram a guerra dos acaicos, seu poderio e suas migrações, ocorridas cerca de 300 anos antes. A Grécia do VIII século aec é um país dividido em pequenos reinos, com uma nobreza de costumes simples, um povo de cultivadores e artesãos.
         Diante da escassez de solo bom para desenvolver uma agricultura mais rica e diversificada, a oliveira era quase que a única fonte de renda dessa gente campesina. Registra Alan Lloyd (2004):
Separados pelo relevo e pelo mar, os habitantes mais engenhosos começaram a se consolidar em pequenos grupos, cada um dos quais lutando por sua faixa de terra produtiva, sob um chefe guerreiro local. Dessa luta intérmina, foi surgindo, ao longo de séculos, comunidades isoladas e autônomas, cada uma com o seu chefe guerreiro, surgido da necessidade permanente da defesa do território conquistado.

         Por outro lado, aqueles que se estabeleceram nas pequenas praias e enseadas, tiveram, por força da necessidade, de se lançarem ao mar, tirando daí o seu sustento. Mas esses gregos não se confinaram em sua pequena península; ainda no começo de sua história até o século VI aec, eles fundaram numerosas colônias em todo o contorno do Mediterrâneo, da costa da Ásia Menor até Marselha, em vista do que se tornaram hábeis comerciantes e exímios nas artes da navegação.        
Em razão dessa expansão, não se deve confundir a Grécia com o mundo grego, o qual ocupa espaço geográfico bem mais extenso. Mesmo assim dispersos, não perderam sua identidade nem suas raízes, pois tinham na religião e na língua dois traços unificadores que os ajudavam a cimentar e conservar intactas suas características raciais, [2] tendo como pontos de encontro os oráculos e os jogos anuais em que se confraternizavam.
         Quanto ao aspecto religioso, os gregos imaginavam seus deuses como homens, porém mais poderosos e imortais; eles elegeram Zeus como o rei dos deuses. Mas há deuses do céu, como Apolo; do mar, como Poseidon; da terra, dos infernos etc. Até parece que havia um deus para cada uma das atividades humanas. Só no Olimpo, uma espécie de morada dos deuses, havia doze deles, dentre outros: Zeus, Hera, Atena, Afrodite, Apolo etc. Esses deuses tinham, todos, as virtudes e defeitos dos humanos: cobiça, inveja, ódio, amor, paixão etc. - exibindo como diferença apenas um poder bem maior que o do homem: a imortalidade.
Como intermediários entre os deuses e os homens, encontram-se os semideuses ou heróis, autores de façanhas fabulosas, sendo Hércules o mais famoso de todos. O herói grego, também como seus deuses, não era de melhor caráter, portanto capaz de gestos altruísticos e de baixarias as mais terríveis. Os gregos desse período arcaico não tinham sacerdotes, chefes religiosos, hierarquia. Por isso, quando eles não tinham respostas para suas dúvidas, angústias, dilemas e problemas, apelavam para os seus deuses e heróis, cujas soluções, em geral, se davam quase que totalmente em nível antropomórfico.
         Essa é a fase inicial mítica. Hesíodo, em sua Teogonia, explica o nascimento de todos esses deuses, muitos dos quais são, ou contém, partes do universo, de onde surgiu a explicação mítico-poética da gênese do universo e dos fenômenos cósmicos. Do caos original muitos se teriam gerado, o que levaria, séculos mais tarde (± por volta do séc. VI a.C), às primeiras ideias filosóficas que buscaram uma explicação naturalista do mundo e de seus fenômenos a partir de causas físicas. E foi a partir daí, isto é, da busca da causa ou causas primeiras da constituição física do mundo (e dentro deste mundo, o homem), que a filosofia ensaiou os seus primeiros passos, com aqueles que se convencionou chamar naturalistas ou pré-socráticos. Eles são muitos, dentre os quais podemos destacar: Tales de Mileto, Heráclito de Êfeso, Pitágoras (o filósofo dos números), Parmênides, Demócrito, Empédocles e tantos outros. E sucedendo a esses, a tríade cuja fama atravessou os séculos para chegar até nós: Sócrates, Platão e Aristóteles.  
         Na Grécia, duas cidades elevaram-se ao primeiro plano: Esparta e Atenas. Enquanto esta era a cidade dos negociantes, industriais e artistas, aquela era a cidade dos soldados. Assim, politicamente, ambas se diferenciavam: enquanto os espartanos tinham um governo aristocrático e uma organização toda militar, Atenas fora-se tornando democrática, com o povo assumindo, sob Sólon, o governo da cidade. Assim também se constituía o regime político das demais cidades gregas: democracia ou aristocracia.
         Após a última invasão dos dórios, houve um relativo período de paz, que veio a ser quebrado por volta do V século aec, quando os persas, já senhores da Grécia asiática, resolveram atacar a Grécia européia. Nessa guerra, apesar da supremacia persa em termos de exércitos, os gregos saíram vencedores em terra e depois no mar, tendo como conseqüência a libertação total de todo o mundo grego. O principal mérito dessas vitórias coube aos atenienses, não obstante serem os espartanos uma sociedade de guerreiros.
         Após essa vitória dos gregos sobre os bárbaros (era considerado bárbaro todo aquele que não fosse grego), houve um surto de desenvolvimento artístico extraordinário, sobretudo em Atenas, então sob a administração de Péricles. Foi a época em que se construíram os grandes e belíssimos templos, a escultura adquiriu enorme significação, a literatura explodiu em todos os gêneros: o drama, a tragédia, a oratória, a história... Isso sem falar na filosofia, que desde o VII século já vinha revolucionando o pensamento grego com respeito às indagações da origem das coisas, do ser e de suas qualidades.
         Esse destaque fez com que Atenas se tornasse uma espécie de império em torno do qual se agruparam muitas cidades gregas da Ásia e do Arquipélago, fato que terminou gerando revoltas e invejas, notadamente de Esparta, o que culminou por levá-las a guerrearem entre si. Assim, de 431 a 362 aec, a Grécia é despedaçada por lutas intestinas entre as cidades. A guerra do Peloponeso, em que se empenharam Esparta e Atenas, culminou com a queda desta última em 404. Mas a supremacia de Esparta não vai muito longe, pois termina vencida por Tebas. Também nesse interregno, as demais cidades gregas se enfraqueceram pela discórdia entre ricos e pobres. Sobre este aspecto, vejamos a tese levantada por Alan Lloyd:

Por uma estranha lei da vida, apoiada pela História, os empobrecidos e os afluentes são igualmente conservadores. Os abastados não veem necessidade de mudança; os pobres também a temem, pois em sua existência a fome é a única alternativa em sua vida frugal. O radicalismo, o desejo de mudança para melhor, surge daqueles que estão em transição, os que se elevaram acima da paralisia da pobreza, sem terem ainda, contudo, adquirido a indiferença da prosperidade. Eles não estão cegos nem à injustiça nem ao potencial, e desejam alterar as coisas. Eis aí porque, por mais paradoxal que pareça, os oprimidos não costumam se revoltar durante as fases de mais desesperada privação, e sim nos estágios incipientes das reformas, justamente quando começa a haver mudança para melhor.
Assim, o povo da Grécia, tendo tolerado por gerações o domínio dos aristocratas, tornou-se irrequieto quando lhe foi oferecido o vislumbre de uma vida diferente, pelo surgimento de uma classe média. [3]

         Um pouco diferente, porque tem em vista mais o materialismo histórico, que tem em Marx, Engels e Hegel os expoentes máximos, é o ponto de vista esposado por Kautsky sobre a decadência da soberania do estado grego:

A história da Grécia é a de uma guerra eterna entre as várias cidades e as cidades-estados, raramente interrompida para a defesa comum contra um inimigo único. Essas guerras aceleraram enormemente a decadência grega, assim que se fizeram sentir as consequências da economia escravista. 

         Esse mesmo ponto de vista ele expressa com relação a Roma, a cujo enfraquecimento político precede o fracasso da economia, antes baseada na mão de obra escrava, ao afirmar que: Esse (mesmo) destino estava reservado a uma cidade italiana, Roma, que submeteu a seu domínio toda a civilização mediterrânea.
O fato histórico preponderante é que a Grécia, em face de suas querelas internas, que trouxeram consequências desastrosas para sua economia, terminou por cair sob a tutela dos macedônios, no ano de 338 aec, não obstante seu desaparecimento total como Estado politicamente independente só vir a acontecer no ano 30 antes de Cristo.

 
BIBLIOGRAFIA
KAUTSKY, Karl. A ORIGEM DO CRISTIANISMO. Rio de Janeiro-RJ: Civilização Brasileira, 2010.

LLOYD, Alan. MARATONA. Rio de Janeiro-RJ: Ediouro, 2004.

[1] Utilizaremos ora aec: antes da era com; e dec: depois da era comum, ora a.C e d.C: antes e depois de Cristo. (N. do A)
[2] O termo “raça” está empregado, aqui, no sentido de etnia, desvestido de qualquer conotação racista, conforme se pretendeu atribuir em passado recente: raça ariana, raça superior etc. Embora, não há negar, os gregos ou helenos daqueles tempos, bem como os romanos, classificassem como  “Bárbaros”, todos os povos de seu entorno que não tivessem origem helênica ou romana. Isso, de certa forma, se configurava racismo. (N. do A.)
[3] Não nos cabe, neste curto ensaio, concordar com a tese acima citada. Quem sabe, na Grécia de então, a situação se tenha mostrado propícia a uma sublevação. Ultimamente, entretanto, o que se tem visto não é um levante da classe média, pelo menos nos países do mundo árabe. Vejam-se os casos da Tunísia, do Egito, da Líbia e, um pouco antes, da própria Grécia. O que os jornais televisivos apregoam é que tais movimentos têm origem nas populações mais pobres e espezinhadas por eternizados reis e ditadores. (N. do A.)


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