domingo, 5 de julho de 2015

A FESTA DA PADROEIRA

          Na década de 1950, a cidade de Francisco Santos-PI, ainda não existia. O povoado de Jenipapeiro, que a antecedeu, era formado, basicamente, por poucas ruas, com o traçado de dois quadriláteros. No primeiro deles havia uma pequena igreja católica plantada no centro da rua de Baixo com seu portão principal apontando para o norte. No outro havia o mercado público, circundado por três ruas. Várias outras casas espalhadas integravam aquele povoado, como as do Saquim, mas que ainda não tinham o formato de ruas.
          O evento mais importante da localidade realizava-se todos os anos em outubro, considerado o mês de Maria, mãe de Jesus e padroeira daquele distrito. Era um momento aguardado e desejado, principalmente pelas crianças. Uma série de providências era adotada pelas famílias, como a compra de uma roupa especial e a engorda das galinhas e dos capões. A ânsia pela chegada da data tão festiva era muito grande, a ponto de se contar nos dedos os dias que ainda faltavam.
          Pelo menos em quatro momentos os festejos se desdobravam. O leilão das oferendas no adro - espaço externo e calçado das igrejas - era um dos pontos altos. No local apropriado era posta uma mesa onde eram colocadas as oferendas. As pessoas interessadas iam se acercando e se preparando para os lances. Em alguns momentos era perceptível o enfrentamento de egos, com vistas a arrematar alguma jóia. À instigante provocação de quem dá mais, nova valor era proposto. Era claramente observável uma disputa pelo destaque.
          Em volta desse ambiente, com alguns metros de distância, eram instaladas as bancas das boleiras, das gostosinhas ou raspadinhas, galinhas recheadas e outras guloseimas. Era exatamente aqui que as crianças entravam em delírio. Com alguns tostões no bolso, ficava difícil escolher o que comprar. Era preciso fazer opções: o pão de ló de Biluca ou uma raspadinha(suco de várias cores com gelo raspado)?
          A missa principal, geralmente por volta das dez horas, era muito concorrida. Poucas pessoas bem acomodadas. Do lado direito agrupavam-se as pessoas moradoras do povoado; à esquerda reuniam-se os ribeirinhos dos Macacos, das Canas, do Diogo e de outras localidades. A maioria de pé ou de joelhos, conforme o ritual. Destacavam-se as senhoras zeladoras do Sagrado Coração de Maria, com roupa de gala, fitas vermelhas no pescoço, contendo na ponta uma grande medalha, acho que de Maria Santíssima. O padre, de costas para os fiéis, com exceção do tempo em que fazia a homilia. Muito atentas, as pessoas procuravam mentalizar as orientações e os ensinos, que, depois, eram objeto de intensos comentários.
          Nessas missas especiais, o que mais impressionava, naquelas ocasiões, era o sofrimento de ficar tanto tempo de joelhos. Não menos sofrido era aguardar, em jejum, o momento de receber a hóstia, lá pelas onze horas da manhã. Ao terminar o ato litúrgico, quase ao meio-dia, muitos estavam a ponto de desmaiar.
          Entretanto, eram momentos de muita alegria e devoção. Muitas vezes sob a emoção do clima de festa, o pipocar dos fogos, o perfume que exalava aos quatro cantos, a elegância das roupas de guarda. Ao encerrar-se a missa, as pessoas se dispersavam, levando consigo uma sensação intraduzível de conforto e esperança.
          Os jovens tinha sua festa à parte, e não era aquela oferecida pela Igreja. O passeio publico que circundava o mercado era o lugar de desfile, com um objetivo bem definido: um flerte, um sinal qualquer que ensejasse um namoro. Naqueles momentos, os olhares eram mais atentos, e até o coração, vez por outra, batia mais forte. Se durante o dia a colheita não tivesse sido alcançada, ainda havia esperança no baile à noite.
          Por ultimo, o fechamento dessas comemorações era a procissão, lá para o final da tarde. A imagem do Sagrado Coração de Maria era colocada no andor e conduzida entre duas filas indianas de fiéias. algumas rezas eram feitas durante o percurso, predominando, todavia, a entonação de vários cantos religiosos.
           Naquele tempo havia uma tradição de se conduzir a santa virada para o povo. ao se aproximar da igreja, no retorno, invertia-se essa posição. Conta-se que numa dessas festividades, lá pelo final da década de 1950 ou início da de 1960, o périplo da procissão se aproximava do seu final quando o velho Moisés - tio de meu pai e meu padrinho - teria instado os condutores do andor: "Virem a santa!". E todos responderam efusivamente: "Vivaaaaa!". Ele repetiu o pedido de forma enérgica: "Virem a santa!". E o povo novamente respondeu: "Vivaaaaa!". Inconformado e zangado, gritou em alto e bom som: "Virem esta rapariga!" Não há provas de que tal fato aconteceu, mas essa história é conhecida de muitas pessoas contemporâneas do ocorrido. Se tal despautério foi efetivamente cometido, certamente o Imaculado Coração de Maria, conhecedor das boas intenções do zeloso servidor, exculpou-lhe sem a aplicação sequer de algumas penitencias.
          Numa dessas festas da padroeira, calcei, pela primeira vez, um par de sapatos que me pai comprou no Juazeiro do Norte-Ce. O formato dele me parecia muito feio, era como se estivesse com dois pés de patos. Tinha a impressão de que as pessoas me olhavam com deboche. Decepcionado com aquela novidade, tratei logo de aposentá-lo precocemente.
          O tempo passou e os costumes já são bem diferentes. O grau de devoção aparentemente diminuiu. A terrinha, que já foi considerada como da santidade, distancia-se cada vez mais do seu apego à religiosidade, mergulhada que se encontra nos modismos e modernidades do mundo globalizado. Embora a celebração da festa da padroeira prossiga ano após ano, no meu modo de sentir já não mais produz as emoções e os sentimentos puros que embalavam as almas dos fiéis daquela época.
          As gerações mais novas certamente desconhecem esse passado distante. As mais velhas, entretanto, quando se veem envolvidas em lembranças desses momentos felizes, revivem, saudosamente, aquelas vibrações suaves, indelevelmente gravadas na alma de cada um. Pelas suas mentes descortina-se aquele mundo mágico onde interagiam sonho e realidade, imprimindo sensações agradabilíssimas.
José Carmo Filho, nascido no Povoado Jenipapeiro, hoje cidade de Francisco Santos-PI. Reside em Brasilia - DF, desde 1966, onde aprimorou a sua formação educacional, constituiu família e inseriu-se no mercado de trabalho, através de concurso público. Embora intelectualmente preparado, nunca tinha se aventurado a colocar em livros suas idéias, suas experiências. Ao completar 70 anos, brindou-nos com o lançamento do seu primeiro livro Viandante da Vida, dando-nos a oportunidade de conhecer esse grande talento para as letras. Agora volta a nos presentear com este Artigos e Crônicas, onde trata de diversos temas que afligem a sociedade atual e outros temas, como esta crônica que postamos acima.

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2 comentários:

  1. gostaria, em primeiro lugar, de agradecer a vocês por, mais uma vez, atender o meu pedido. Além do livro ser muito bom e merecer toda a divulgação possível, o seu autor é da terrinha. Mais um conterrâneo ilustre, talentoso que sente orgulho do seu lugar, do seu povo e, por isso, nos deixa orgulhosos também.

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  2. Meus sinceros agradecimentos ao único comentarista que sequer conheço pessoalmente. Minha lembrança se restringe apenas à sua infância, quando morou bem próximo da casa de meu pai - rua S. José. Agradeço também aos que leram esta crônica, mas por alguma razão não quiseram comentar. Sem saber se gostaram, se discordaram ou fizeram algum julgamento favorável ou não, fico sem capacidade para uma autocrítica. Entretanto, não tenho porque reclamar, mas tão-somente respeitar essa forma de ser da nossa gente, que amo muito. José Carmo Filho

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