quarta-feira, 1 de julho de 2015

Doente do corpo e da alma

          
          Muitos acham que o futebol brasileiro ainda não chegou ao fundo do poço e que o próximo fracasso será não participar da Copa de 2018.

          Outro caminho, que agrada a muitos, é a diminuição da importância da seleção. Após os 7 a 1, quando se esperava uma comoção nacional, como na Copa de 1950, a maioria levou na gozação, como se dissesse: “Existem coisas mais importantes no país”. Foi uma demonstração da evolução da sociedade?

          São múltiplas as razões para a queda de nosso futebol e, isoladamente e em pouco tempo, nenhum treinador, dirigente, mágico nem Neymar vai resolver o problema. Muito menos o grupo de notáveis que pediu Galvão Bueno, com a participação de seus amigos.

          O futebol brasileiro está doente, há muito tempo, do corpo e da alma. Para tratá-lo, é necessário um grupo de profissionais especializados, independentes e competentes, dentro e fora de campo, e que tenham tempo. Não é coisa para curiosos, oportunistas nem para ex-atletas que não se prepararam tecnicamente. A primeira meta deveria ser trazer o doente à realidade e acabar com as mentiras, como a de que o Brasil produz craques a cada esquina, além de reconhecer a evolução dos adversários.

          A primeira divisão do futebol está nos grandes times da Europa (Barça, Real, Bayern e outros). O futebol que se joga no Brasil é, com boa vontade, da segunda divisão. Falta à seleção um técnico com experiência e sucesso na Primeira Divisão. Colocar Dunga ou outro treinador brasileiro é o mesmo que por um técnico da Série B do Brasileirão em um dos grandes da Série A, sem passar por trabalhos intermediários. Evidentemente, esse é apenas um de dezenas de problemas.

          Na parte técnica e tática, o futebol brasileiro vive de lances isolados, de espasmos. Há pouco jogo coletivo. A seleção atual tem enormes espaços entre os setores, como os times brasileiros. Os volantes avançam na marcação, e os zagueiros ficam muito atrás. Mas nossa principal carência é a falta de um excepcional atacante à frente de Neymar e de um grande meio-campista, que atue bem de uma intermediária à outra. Se tivéssemos esses dois jogadores, além de Neymar, o time teria grandes chances de brilhar, mesmo com Dunga, Gilmar Rinaldi e Del Nero. Foi o que ocorreu na Copa de 2002.

          Nosso futebol está doente também da alma e precisa de ajuda psicológica. O prestígio e a marca do futebol brasileiro ainda são valiosos, acima da qualidade técnica e emocional dos atuais atletas. Diante de tanta pressão, expectativa e responsabilidade, eles jogam menos do que sabem. Neymar, contra a Colômbia, teve uma crise histérica de chiliques. Thiago Silva, que estava entre os melhores zagueiros do mundo, deixou de estar, por dois erros graves, idênticos, seguidos e inexplicáveis. Já criticar os jogadores, que seriam indiferentes à seleção, é injusto e não tem nada a ver.

          Desequilíbrios emocionais sempre existiram. Até hoje, ninguém sabe, nem Ronaldo, se ele, na final da Copa de 1998, teve uma convulsão ou uma síndrome de conversão psicomotora (piti). Isso mostra a fragilidade humana, mesmo nos craques.

Por Tostão. 
Jogador genial, aposentado precocemente devido a um descolamento de retina. Formado em medicina é hoje um dos maiores cronistas do futebol brasileiro. Escreve na Folha de São Paulo às quartas e domingos.



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